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  1. As consequências econômicas da guerra

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    Enquanto um cessar-fogo frágil e negociações incertas mantêm a guerra contra o Irã em um compasso de espera marcado por destruição e miséria, pode parecer inadequado discutir os efeitos econômicos do conflito sobre sociedades distantes da linha de frente. A possibilidade de conter uma nova escalada, no entanto, talvez dependa precisamente dos interesses afetados pela expansão da devastação econômica, incluindo os das classes dominantes do núcleo capitalista. 

    Nesses setores, a atual onda de agressão imperial encontrou pouca resistência, em parte porque um de seus efeitos tem sido intensificar a transferência de riqueza para o topo. Quando o comércio de petróleo é desorganizado, as gigantes do setor ampliam seu poder de mercado, elevando suas margens de lucro à medida que compradores disputam cada barril disponível. É o que Isabella Weber e Evan Wasner, retomando um conceito de Abba Lerner, descrevem como “inflação dos vendedores”. Os autores demonstraram que os efeitos distributivos da crise energética de 2022, desencadeada pela guerra na Ucrânia, beneficiaram sobretudo os Estados Unidos: empresas sediadas no país responderam por cerca de um terço de todo o lucro líquido obtido pelas petroleiras e companhias de gás de capital aberto naquele ano.

    Os grandes vencedores foram os que já estavam no topo. Mais da metade dos lucros do petróleo em 2022 foi apropriada pelo 1% mais rico da população, enquanto a metade inferior da sociedade ficou com apenas 1% do total. Um desequilíbrio obsceno: 50% para quem está no 1% do topo, 1% para quem está nos 50% da base. Em uma série de artigos recentes coautorados por Gregor Semieniuk, Weber vem argumentando que, na ausência de uma resposta política radicalmente diferente, a atual guerra contra o Irã tende a produzir resultados semelhantes.

    Uma vez que o setor do petróleo é sistemicamente relevante, seu preço afeta o de inúmeros outros bens e serviços. Qualquer oscilação impacta rapidamente a inflação geral e desencadeia uma reação dos bancos centrais. Mas o aumento das taxas de juros, instrumento convencional das autoridades monetárias, faz pouco para enfrentar a crise energética em si. Seu efeito é apenas deslocar o custo do ajuste para as classes trabalhadoras, elevando o desemprego para conter a demanda e tentar moderar a alta dos preços. 

    Em regiões da periferia global, como a América Latina, os juros tendem a subir ainda mais, à medida que os países correm para defender suas moedas diante da retração da liquidez internacional. Nessas economias, o impacto da política monetária sobre o desemprego costuma ser menos pronunciado, mas os juros elevados ainda assim preservam um claro caráter de classe: ampliam a fatia da renda apropriada pelos rentistas, transferindo uma parcela crescente das receitas arrecadadas por sistemas tributários regressivos para os mais ricos, ao mesmo tempo em que aprofundam a subordinação da maioria da população ao endividamento. Choques do petróleo, portanto, promovem uma redistribuição regressiva de renda e riqueza tanto no Norte quanto no Sul global: de forma direta, pelos lucros do petróleo; de forma indireta, pela resposta monetária.

    Seria possível inverter essa lógica por meio de políticas alternativas ao regime de metas de inflação, protegendo os de baixo e transferindo o ônus do ajuste para o topo? Medidas dessa natureza poderiam reduzir a rentabilidade econômica da guerra e enfraquecer as forças que hoje se beneficiam de sua continuidade.

    Esta coluna discutirá brevemente os fundamentos teóricos da política monetária convencional, que tende a oferecer a mesma resposta a qualquer choque de preços. Em seguida, examinará a reação dos bancos centrais à crise energética de 2022, tanto nas economias centrais quanto nos países latino-americanos com regimes de metas de inflação consolidados—segundo a classificação da CEPAL, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. O objetivo é esclarecer a dinâmica da conjuntura atual e indicar os riscos da persistência na mesma estratégia ao longo dos próximos meses.

    Inflação de salários 

    Há mais de meio século, a teoria econômica dominante fornece justificativa para políticas monetárias nocivas à classe trabalhadora ao se apoiar em uma interpretação específica da inflação sintetizada na chamada “Curva de Phillips”. No artigo de 1958 que deu origem a esse debate, o economista A. W. Phillips não estava preocupado com a inflação de preços, mas sim com a relação entre desemprego e variações salariais. Sua análise partia de um argumento bastante plausível: baixos níveis de desemprego fortalecem o poder de barganha dos trabalhadores, criando condições para aumentos salariais. “Quando a demanda por trabalho é alta e há pouquíssimos desempregados”, escreveu Phillips, “devemos esperar que os empregadores elevem os salários rapidamente, já que cada empresa e cada setor são continuamente tentados a oferecer um pouco acima da média vigente para atrair os trabalhadores mais capacitados de outras empresas e setores.”

    Em 1960, quando Paul Samuelson e Robert Solow batizaram a curva em homenagem a Phillips, introduziram uma alteração decisiva na análise. A relação que passaram a investigar já não era entre desemprego e inflação salarial, mas entre desemprego e inflação, entendida como aumento generalizado do nível de preços. A hipótese subjacente era que, sempre que mercados de trabalho aquecidos pressionassem os salários nominais para cima, as empresas simplesmente repassariam esses custos aos preços. Nesse modelo, o poder dos trabalhadores de apropriar uma parcela maior da renda seria efetivamente contido pelo poder de mercado das empresas. De maneira crucial, consolidou-se a ideia de que a inflação seria, em essência, causada pela elevação dos salários.

    Para esclarecer melhor esse contraste, vale recorrer à formulação alternativa proposta por Richard Goodwin em 1967. O modelo de Goodwin retomava a relação empírica originalmente observada por Phillips (entre desemprego e salários), abstraindo variações de preços. O resultado mostrava que, em períodos de expansão econômica, quando o exército industrial de reserva era reduzido, os trabalhadores comprimiam os lucros. A crise subsequente restaurava a população excedente de trabalhadores e, assim, a rentabilidade. Nessa leitura, ciclos econômicos aparecem como ciclos de lucratividade e desemprego. 

    Nas economias capitalistas contemporâneas, abstrair completamente da inflação, como fez Goodwin, seria um equívoco, já que as disputas distributivas se refletem, ao menos parcialmente, nas variações de preços. Mas a Curva de Phillips de Samuelson e Solow vai longe demais na direção oposta, descartando a possibilidade de que os trabalhadores elevem seus salários reais e, assim, eliminando da análise as compressões cíclicas da lucratividade. Isso abriu caminho para o argumento de que não haveria prejuízo aos trabalhadores quando políticas anti-inflacionárias operassem por meio do mercado de trabalho, já que qualquer tentativa de pressionar por salários mais altos seria inevitavelmente anulada pela inflação. 

    Samuelson e Solow escreviam em uma época em que macroeconomistas acreditavam que seu principal desafio era garantir o pleno emprego. A sombra do desemprego em massa dos anos 1930—e de suas consequências políticas, sobretudo o fascismo—permanecia viva na memória social. Com a Curva de Phillips, os autores sugeriram que o pleno emprego era alcançável, mas talvez implicasse um custo em termos de inflação. Os formuladores de política econômica teriam, segundo eles, um “cardápio de escolhas”: baixo desemprego com inflação mais alta, ou baixa inflação com desemprego mais elevado.

    No fim dos anos 1960, Milton Friedman e Edmund Phelps contestaram essa visão, argumentando que, uma vez que os governos passassem a explorar esse “cardápio”, as expectativas de inflação se ajustariam e a própria inflação tenderia a aumentar. O trabalho da dupla marcou o abandono do pleno emprego como objetivo da gestão macroeconômica. A partir daí, ganhou força a noção de que o desemprego deveria permanecer próximo de sua “taxa natural”, nos termos de Friedman. Um certo nível de desemprego passou a ser visto como inevitável, ou, ao menos, estrangeiro ao escopo da política macroeconômica. Para reduzir essa “taxa natural”, os governos precisariam recorrer a outros instrumentos, sobretudo o enfraquecimento dos direitos trabalhistas. A inflexão foi profunda: a estabilidade de preços substituiu o pleno emprego como prioridade da política econômica, enquanto a política de emprego passou a se confundir com reformas do mercado de trabalho.

    A guinada friedmaniana da política monetária consolidou uma visão restrita da inflação, baseada na ideia, herdada da Curva de Phillips de Samuelson e Solow, de que aumentos salariais seriam seu principal motor. O regime de metas de inflação que se tornou hegemônico nos anos 2000—isto é, o modelo no qual bancos centrais alteram as taxas de juros para tentar atingir uma meta de inflação previamente definida—foi construído precisamente sobre essa teoria. Nessa perspectiva, toda vez que a inflação sobe, ainda que impulsionada, por exemplo, por um choque externo nos preços do petróleo, a única solução possível é elevar o desemprego para reduzir a inflação salarial e, assim, trazer a inflação de volta à meta.

    Em uma contribuição recente de grande impacto, Olivier Blanchard e Ben Bernanke afirmaram que “a inflação do período da pandemia foi causada principalmente por disrupções na oferta e por fortes aumentos nos preços de alimentos e energia”. Ainda assim, as implicações de política econômica que os autores extraem desse diagnóstico parecem curiosamente inalteradas: “o retorno da inflação à meta pode exigir um período de desemprego modestamente mais elevado”. Embora não interpretem a inflação recente como o proverbial prego da demanda excessiva, não conseguem deixar de defender como solução o martelo das altas de juros produtoras de desemprego.

    Se a inflação fosse normalmente causada por mercados de trabalho excessivamente aquecidos, o regime de metas de inflação funcionaria razoavelmente bem segundo seus próprios critérios. Mas, em um contexto em que a inflação decorre de forma muito mais evidente de choques de oferta—geopolíticos, climáticos ou sanitários, por exemplo—, os limites da teoria inflacionária tradicional tornam-se mais visíveis, e a necessidade de abordagens teóricas e políticas alternativas se torna mais urgente. Uma possibilidade seria analisar a inflação a partir de seus quatro principais vetores, como sugerem Lance Taylor e Nelson Barbosa-Filho: custos salariais, lucros, preços de importação e impostos indiretos. 

    Quando a inflação é compreendida dessa maneira, torna-se possível imaginar uma variedade de políticas para enfrentar crises do petróleo e outros choques de preços: da taxação de lucros extraordinários à nacionalização do setor energético; de controles seletivos de preços a estratégias planejadas de descarbonização. A questão passa, então, a ser política: como o aumento do custo do petróleo será distribuído entre trabalhadores, indústrias dependentes de energia, petroleiras e o Estado? Não há resposta simples. Ainda assim, uma combinação de políticas cuidadosamente desenhadas poderia atenuar os efeitos dos choques sobre os grupos mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que ampliaria a resiliência de longo prazo da economia e contribuiria para o enfrentamento da crise climática.

    Culpando a vítima

    Como as economias centrais reagiram, em 2022, ao choque energético desencadeado pela invasão russa da Ucrânia e pelas sanções subsequentes impostas à Rússia? Diante da aceleração da inflação provocada pelas disrupções nas cadeias de oferta durante a pandemia, os bancos centrais inicialmente tentaram ganhar tempo, apostando em uma reversão rápida do problema. Sabiam que a taxa de juros, seu instrumento tradicional, era pouco adequada para lidar com aquela situação. Além disso, temiam que um aumento dos juros em meio à frágil recuperação pós-pandemia desencadeasse uma queda abrupta nos preços dos ativos, ameaçando a estabilidade financeira. Depois de mais de uma década comprando ativos em larga escala para evitar a deflação quando os juros haviam atingido o chamado “limite inferior zero”, os bancos centrais se viam agora administrando mais uma bolha de ativos e compelidos a atuar como formadores de mercado de última instância.

    Naquele momento, porém, um poderoso bloco deflacionário mobilizou defensores da ortodoxia monetária para pressionar os bancos centrais a agir. O argumento era que uma reação lenta poderia desancorar as expectativas de inflação, mantidas estáveis por décadas de adesão disciplinada ao regime de metas. Uma vez perdida essa âncora, preços e salários entrariam em uma espiral ascendente, repetindo a estagflação dos anos 1970, e o controle da inflação seria perdido. Além da gestão das expectativas, afirmavam, uma política monetária restritiva seria necessária para conter os efeitos secundários do choque nos preços do petróleo, impedindo sua disseminação por toda a economia.

    Argumentos técnicos dessa natureza ignoravam a inadequação da taxa de juros para lidar com esse tipo de choque. Afinal, juros mais altos em Nova York, Londres ou Frankfurt não colocariam fim à guerra na Ucrânia e, portanto, seriam incapazes de enfrentar a origem última da inflação. Tampouco teriam efeito significativo sobre a demanda por energia a ponto de moderar a alta dos preços. Insistir em uma política monetária restritiva como resposta a um choque de oferta significava, essencialmente, administrar a média: como não se esperava que os preços do petróleo e do gás recuassem, trazer a inflação de volta à meta exigia que os preços dos demais bens e serviços fossem reduzidos em termos reais.

    Como discutido anteriormente, esse ajuste deveria ocorrer por meio do mercado de trabalho. O objetivo era elevar o desemprego e enfraquecer o poder de barganha dos trabalhadores, que arcariam com o custo do ajuste enquanto as margens de lucro permaneceriam relativamente protegidas. Uma vez que seus efeitos tendem a ser profundamente impopulares, essa estratégia desinflacionária raramente era reconhecida explicitamente. Mas houve exceções. Em 2022, Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, afirmou que os trabalhadores precisavam contribuir para o esforço de combate à inflação atenuando suas reivindicações salariais. Sem “moderação nas negociações salariais”, disse ele, a inflação “sairá do controle”. Culpando a vítima?

    É verdade que os governos não deixaram a tarefa exclusivamente nas mãos dos bancos centrais. Em muitos países, um conjunto de medidas foi adotado para amortecer o choque. O Reino Unido e a União Europeia, por exemplo, impuseram tetos de preços de energia, com o governo britânico financiando parte desses subsídios por meio da taxação dos lucros extraordinários das petroleiras. Ainda assim, prevaleceram os defensores da ortodoxia anti-inflacionária, e os efeitos dessas políticas foram, em grande medida, anulados pelas tradicionais altas de juros.

    Em meados de 2023, pouco mais de um ano após o início da guerra na Ucrânia, a taxa básica de juros nos Estados Unidos e no Reino Unido havia saltado de pouco acima de zero para 5%. Na zona do euro, os juros atingiram 4%, patamar sem precedentes desde a criação da moeda comum. Os efeitos sobre o mercado de trabalho eram previsíveis: nos Estados Unidos, a taxa de desemprego passou a subir a partir de 2023, enquanto no Reino Unido continuou a trajetória de alta iniciada no ano anterior. Os banqueiros centrais voltavam, mais uma vez, a honrar o legado de Friedman e Phelps.

    Paraíso dos rentistas

    A brusca contração monetária inaugurou um novo momento de retração no ciclo financeiro global. Em cenários como esse, argumentava Adam Tooze à época, a política monetária passa a operar sob uma espécie de “efeito manada”: “quando o Fed se move e o dólar se fortalece, outros países ou elevam suas taxas de juros ou enfrentam uma forte desvalorização cambial, o que alimenta ainda mais a inflação”. Desta vez, porém, assistiu-se a nada menos que “o aperto monetário mais abrangente que o mundo já viu”.

    Na América Latina, os adeptos do regime de metas de inflação reagiram prontamente. No Peru e no Chile, as taxas básicas de juros, que estavam abaixo de 1% no pós-Covid, saltaram para, respectivamente, 7,75% e 11,25% em 2023. No Brasil e na Colômbia, o piso pós-pandemia havia sido um pouco mais alto, 2% e 1,75%, respectivamente, mas o aperto monetário levou as taxas para acima de 13% em 2023. No México, os juros subiram de 4% para 11,25%. Em certo sentido, a estratégia pareceu funcionar, embora a um custo fiscal e distributivo enorme. Enquanto o dólar se valorizava globalmente em 2022, atingindo o maior nível em vinte anos, o real brasileiro, o peso mexicano e o sol peruano contrariaram a tendência, fortalecendo-se frente à moeda americana. No Chile e na Colômbia, as moedas se desvalorizaram, mas em grau menor do que em muitas outras economias periféricas. Ao evitar desvalorizações cambiais mais acentuadas, essas economias latino-americanas colheram benefícios em termos inflacionários. Entre 2021 e 2022, a inflação média caiu no Brasil, subiu apenas moderadamente no México e no Peru e só atingiu dois dígitos no Chile e na Colômbia.

    Nas economias centrais, juros mais elevados tendem a reduzir o crédito, desacelerar o consumo e o investimento e enfraquecer o mercado de trabalho. Já na periferia, taxas de juros estruturalmente mais elevadas, mercados de crédito segmentados e a menor centralidade do endividamento fazem com que esse canal de transmissão seja mais fraco. Nesses casos, a política monetária busca afetar a inflação principalmente por meio da taxa de câmbio, administrando os fluxos de entrada e saída de capital. De fato, segundo estimativas da CEPAL, a desinflação no Brasil e no México ocorreu entre 2022 e 2024 sem desaceleração da atividade econômica. Na Colômbia e no Chile, por outro lado, a desvalorização cambial pressionou a demanda para baixo, reduzindo a inflação da maneira mais convencional. (O Peru foi a exceção nesse caso: evitou uma forte desvalorização, mas enfrentou desaceleração da atividade.)

    Em geral, supõe-se que um aumento das taxas de juros tenha impacto negativo sobre os ativos de detentores de dívida pública, já que reduz o valor de mercado dos títulos existentes com taxas prefixadas. No caso brasileiro, porém, uma parcela significativa dos títulos públicos possui remuneração pós-fixada, fazendo com que sejam beneficiados pelo aperto monetário. Além disso, a manutenção estrutural de taxas de juros extraordinariamente elevadas cria oportunidades abundantes para que os mais ricos capturem parcelas cada vez maiores das receitas tributárias. Assim, em economias financeiramente subordinadas, quando a política monetária conseguiu defender o valor da moeda após o choque de 2022, os trabalhadores acabaram sendo expropriados direta e indiretamente pela classe rentista, mesmo sem um enfraquecimento significativo do mercado de trabalho. Para enfrentar choques de preços sem reproduzir efeitos tão destrutivos, as economias latino-americanas precisarão administrar suas contas de capital de forma a limitar sua vulnerabilidade ao ciclo financeiro global.

    Ormuz e os ricos

    Resta saber se, em termos de inflação e redistribuição, 2026 lembrará 2022. A magnitude do choque provocado pelos bloqueios do Estreito de Ormuz parece maior do que a da guerra na Ucrânia. A extensão de seus efeitos dependerá tanto da duração dos bloqueios quanto da forma como os governos responderão à disrupção em curso. Do ponto de vista dos preços de bens de relevância sistêmica, a comparação é inevitável: assim que os ataques começaram, em março, o preço do petróleo ultrapassou os 100 dólares, exatamente como ocorreu em 2022. E não se trata apenas do petróleo. A oferta de gás natural, fertilizantes, hélio, enxofre e diversas outras commodities também foi fortemente afetada. A alta dos preços voltará a colocar a questão de se o regime convencional de metas de inflação é capaz de lidar com esse tipo de choque. Se os bancos centrais concluírem que sim, é provável que interrompam o ciclo de afrouxamento monetário iniciado em 2024 e, mais uma vez, transfiram o custo do ajuste para os trabalhadores, sem enfrentar nem a emergência imediata nem suas causas mais profundas.

    Na América Latina, muito dependerá dos mercados cambiais. Mesmo economias como as do Brasil e do México, que podem se beneficiar do aumento das receitas provenientes das exportações de petróleo, podem ser desestabilizadas caso o choque provoque uma reversão do ciclo financeiro global. Até agora, as moedas brasileira e colombiana se valorizaram, enquanto a peruana sofreu leve desvalorização. Turbulências cambiais e desvalorizações mais expressivas se concentraram no Chile e no México. Se os bancos centrais das economias centrais optarem por uma nova contração monetária, as pressões de desvalorização tendem a se espalhar por toda a região, levando os bancos centrais latino-americanos a elevar novamente os juros e canalizar receitas tributárias arduamente conquistadas para os rentistas, enquanto os pobres pagam a conta de mais uma guerra distante.


  2. Repúblicas da soja

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    No início deste ano, na Amazônia brasileira, uma coalizão de 14 grupos indígenas se levantou contra um decreto que previa a privatização da hidrovia que liga os municípios de Itaituba e Santarém, no Pará, bem como contra um projeto público de dragagem do rio Tapajós. A gigante global de commodities Cargill controla portos em ambas as cidades, que funcionam como pontos-chave da infraestrutura logística por meio da qual a soja cultivada na floresta tropical e no cerrado é enviada para os mercados globais, principalmente da Europa e do Norte da África. Em 2022, cerca de 13% de toda a soja exportada do Brasil pela Cargill foi embarcada em Santarém, incluindo quase dois terços dos grãos cultivados na floresta tropical.

    O levante indígena começou com um acampamento em frente a um terminal da Cargill em Santarém e com a exigência de que o governo cancelasse a privatização e a drenagem do rio Tapajós. As comunidades alegaram que os planos, sobre os quais não haviam sido consultadas, representavam uma ameaça direta tanto aos seus meios de subsistência quanto à rica biodiversidade da região, arriscando a liberação do mercúrio acumulado no leito do rio. No auge, o acampamento contava com mais de mil pessoas. Após pouco mais de um mês, o governo concordou em atender às demandas. A grande imprensa ficou horrorizada. 

    O episódio traz à tona o papel crítico desempenhado pelas corporações multinacionais nos conflitos em torno da Amazônia. Ao analisar o boom da soja sul-americana no bioma e além, as maneiras pelas quais a concentração corporativa em uma das principais atividades de exportação da região contribuiu tanto para a ascensão de um bloco de agronegócio de extrema direita quanto para as mobilizações populares em defesa do meio ambiente começam a ficar mais claras. Na Meridional de fevereiro, discuti como políticas orientadas à “conservação da terra” ajudaram a criar as condições para o bolsonarismo. Aqui, debaterei outro fator crucial na dinâmica política da América do Sul: as relações de poder no interior das cadeias de suprimento.

    O capital na Amazônia

    O interesse do capital global pela floresta tropical não é novidade. Na década de 1920, por exemplo, Henry Ford comprou uma enorme área de terra no bioma, à qual deu o nome de Fordlândia, e esperava transformá-la em uma plantação de seringueiras para obter a matéria-prima necessária à fabricação dos pneus de seus carros produzidos em massa. Mas a importância relativa do investimento estrangeiro variou ao longo do tempo. Pesquisadores críticos que examinam a região costumam argumentar que seria equivocado colocá-lo no centro da análise, já que os principais problemas da Amazônia decorrem de fatores políticos e econômicos domésticos. “O papel do capital internacional na geração do desmatamento na Amazônia tem sido relativamente menor”, escreveram Susanna Hecht e Alexander Cockburn em The Fate of the Forest, em 1990. Posteriormente, Hetch criticou as tentativas de associar o desmatamento à demanda internacional por carne bovina. “A chamada conexão do hambúrguer”, argumentou ela, “simplesmente não se aplica ao contexto amazônico atual.” (A literatura daquele período sobre essa questão foi resumida por Andrew Hurrell.)

    Nas últimas três décadas, no entanto, a situação mudou radicalmente. A reestruturação da economia mundial em torno da China tornou a América do Sul um importante fornecedor de commodities primárias para a produção global e redefiniu o papel das corporações transnacionais na região, inclusive na floresta tropical. Há uma série de esforços notáveis de mapear esse fenômeno empiricamente. Uma estimativa recente indica que 56% do desmatamento da Amazônia impulsionado por plantações de soja entre 2020 e 2022 pode ser atribuído ao consumo internacional, e não ao doméstico. Em um artigo de 2018, Victor Galaz e seus coautores argumentaram que os principais fatores da mudança no uso da terra na floresta tropical são a produção de soja e de carne bovina, e que essas duas atividades econômicas são dominadas por apenas 8 corporações: 4 gigantes do comércio de grãos (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, conhecidas como ABCD), a maior produtora privada de soja do mundo (a brasileira Amaggi) e três empresas brasileiras de processamento de carne (JBS, Marfrig e Minerva). Galaz et al. também demonstraram que muitas dessas empresas estão intimamente ligadas às 16 instituições financeiras mais envolvidas em atividades que ameaçam biomas críticos para o clima do planeta, e especialmente às “big three” da gestão de ativos (BlackRock, Vanguard e State Street, todas com sede nos EUA).

    A conexão da ADM, da Bunge e da Minerva com essas 16 empresas financeiras ocorre principalmente por meio da participação acionária, enquanto no caso da JBS e da Marfrig, a “influência latente dos investidores” opera predominantemente por meio da dívida. (As três empresas restantes—Amaggi, Cargill e Louis Dreyfus—são de capital fechado, o que significa que os dados sobre seu entrelaçamento com o capital financeiro são limitados.) A conclusão dos autores é contundente: “as ‘gigantes financeiras’, por meio de seu poder comum de participação acionária, têm uma influência potencial anteriormente ignorada, mas considerável, nas empresas que moldam biomas críticos para a estabilidade do sistema climático.” No ano passado, pesquisadores da University College London e da Universidade de Exeter foram ainda mais longe, rastreando os fluxos financeiros—abrangendo empréstimos e emissões de ações e de dívida—direcionados a 24 corporações, incluindo as oito empresas mencionadas acima, que foram “associadas a mudanças significativas no uso da terra e à degradação” na Amazônia brasileira entre 2014 e 2023.

    O enfoque acadêmico também se traduz, vez ou outra, em esforços para que essas corporações transnacionais mudem suas práticas. Em 2019, um grupo de 21 proeminentes pesquisadores propôs “ampliar o foco da ‘responsabilidade social corporativa’ para a ‘gestão corporativa da biosfera’”, defendendo “uma nova lógica empresarial voltada a orientar e preservar a resiliência da biosfera em benefício do bem-estar humano”. Outros apelaram aos bancos centrais e reguladores financeiros, argumentando que é de sua competência lidar com a degradação do ecossistema, uma vez que ela “representa riscos sistêmicos crescentes para os sistemas econômicos e financeiros”. Restringir uma “parte substancial” dos fluxos financeiros a empresas que ameaçam os pontos de inflexão da Amazônia brasileira e das turfeiras indonésias “exigiria apenas coordenação entre um número relativamente pequeno de centros financeiros”.

    A esperança implícita nessa literatura ecoa a observação de Rudolf Hilferding de que a concentração provocada pelo capital financeiro poderia ser aproveitada para superar o próprio capitalismo. “Tomar posse de seis grandes bancos de Berlim”, escreveu ele em 1910 em O Capital Financeiro, “significaria tomar posse das esferas mais importantes da indústria de grande escala e facilitaria enormemente as fases iniciais da política socialista”—exceto que o objetivo aqui não é mais instaurar o socialismo, mas simplesmente preservar um planeta habitável.

    Não pode vencê-los? Junte-se a eles

    A expectativa de que os bancos centrais pudessem vir ao resgate diante do agravamento da crise climática se baseava, ao que tudo indica, em uma conjuntura passageira, que chegou ao fim com o retorno de Donald Trump à Casa Branca no ano passado. Ainda assim, mesmo que esse impulso tivesse sido bem-sucedido, ele poderia ter produzido efeitos colaterais complexos. Como argumentou Yannis Dafermos, “as tentativas do setor financeiro privado de se proteger dos riscos climáticos”—e as tentativas das autoridades monetárias de pressioná-lo a fazê-lo—podem agravar a injustiça no financiamento climático, aumentando os custos de endividamento enfrentados pelos países do Sul Global e aprofundando sua vulnerabilidade financeira.

    Pesquisas sobre o papel do capital global na crise climática devem, portanto, considerar os impactos da concentração corporativa na política em nível nacional, investigando as alianças construídas por corporações transnacionais com elites domésticas e as possíveis formas de resistência que elas podem encontrar. Vista por esse prisma, a trajetória do boom da soja na América do Sul oferece pistas importantes. Desde o final da década de 2010, a América do Sul é responsável por mais da metade da produção global de soja e por quase dois terços das exportações globais da commodity. Em 2024, Argentina, Brasil e Paraguai representaram 61% de todas as exportações.

    Os dados disponibilizados pelo Trase.earth deixam clara a predominância das gigantes do comércio de grãos nas exportações de soja do Brasil e da Argentina, como mostram as figuras abaixo. (Os dados incluem a soja e “o equivalente bruto dos subprodutos comercializados”, ou seja, “farelo e óleo de soja convertidos em toneladas equivalentes de soja”.) As estatísticas para o Brasil começam em 2004, quando as empresas da ABCD respondiam por 48,2% do total exportado em toneladas. Em 2009, sua participação atingiu o pico de 59,8%, antes de cair gradualmente nos anos seguintes, chegando a 42,2% em 2022—a informação mais recente disponível. Apesar da queda, as quatro companhias permaneceram no controle de uma parcela expressiva de um mercado em franca expansão: em 2022, as exportações totalizaram 93,7 milhões de toneladas de soja, contra 36,2 milhões em 2004. Os dados relativos à Argentina se restringem ao período entre 2015 e 2019 e mostram que a participação das empresas do ABCD oscilou entre um quarto e um terço do total. A inclusão de uma quinta gigante do comércio de commodities, a Glencore, eleva essa fatia para mais de 40%.

    Fundadas no século XIX ou no início do século XX, as empresas ABCD viram sua influência global crescer na virada do milênio, em paralelo à expansão da negociação de contratos futuros de commodities. Jennifer Clapp argumentou que essa financeirização do comércio de commodities lhes permitiu “exercer um enorme poder na definição de sistemas alimentares”. Lucrando com a volatilidade que provocou fome e rebeliões populares ao redor do mundo, essas corporações eram conhecidas, segundo Gustavo de Oliveira e Mindi Schneider, por “redirecionar navios em alto-mar para obter ganhos marginais sobre grandes volumes e especular nos mercados futuros com base em informações privilegiadas decorrentes do controle de fatias significativas de mercados pouco transparentes”.

    Na América do Sul, o domínio dessas empresas foi estabelecido na década de 1990 por meio da onda de aquisições que fez parte do processo de neoliberalização. Ao aprofundarem a subordinação dos produtores de soja, elas iniciaram um processo cumulativo que reforçou ainda mais seu controle. Comprimiram os preços pagos aos produtores e os empurraram a combinar o uso intensivo de herbicidas com sementes geneticamente modificadas, “para evitar descontos no momento da entrega, aprofundando a esteira tecnológica e a dependência dos agricultores de financiamento”. No início dos anos 2000, passaram a controlar “toda a logística de transporte… bem como os terminais portuários, navios de carga e unidades de processamento que, em última instância, transformavam a soja em farelo e óleo vegetal”.

    O grande capital sul-americano não ofereceu muita resistência a essa tendência. No Brasil, a Amaggi manteve sua posição de poder, controlando mais de 8% das exportações de soja do país em 2022 e cerca de 1,6% das áreas cultivadas em meados da década de 2010, em parte por meio da coordenação com as grandes transnacionais. A empresa estabeleceu joint ventures com a Bunge e a Dreyfus e obteve financiamento da Mitsui (uma grande trader japonesa). Também exerceu influência política significativa: seu proprietário, Blairo Maggi, foi governador do Mato Grosso entre 2003 e 2010, principal estado produtor de soja do Brasil, senador entre 2011 e 2016 e ministro da Agricultura entre 2016 e 2019.

    Na Argentina, os impostos sobre as exportações de soja in natura fortaleceram grandes grupos agroindustriais nacionais que produzem óleo de soja, permitindo-lhes manter uma participação nas exportações totais semelhante à das empresas ABCD (ver figura acima). Entre 2015 e 2019, as três maiores corporações argentinas (Vicentin, AGD e Perez Companc) controlaram de um quarto a um terço do total das exportações. (Envolvida em uma série de escândalos após 2019, a Vicentin acabaria sendo resgatada por um empresário argentino com o apoio da Cargill.)

    O capital estatal chinês representou um desafio mais significativo. Após a chamada “crise da soja de 2004” na China, quando uma mudança repentina no preço global da commodity levou várias processadoras chinesas à falência, as empresas ABCD viram seu controle sobre o mercado chinês disparar. Em resposta, o governo priorizou a expansão de corporações chinesas, especialmente a COFCO, em uma disputa que ficou conhecida como “batalha dos grãos”. (Veja o relato detalhado de Tomaz Fares.) Os efeitos acabaram chegando à América do Sul: no Brasil, a COFCO começou a exportar soja em 2005 e, desde 2014, passou a responder por uma fatia entre 5% e 8% das exportações totais; na Argentina, sua participação foi ainda maior, em torno de 10% entre 2015 e 2019. Parte relevante da queda, após 2009, da participação das empresas do ABCD no Brasil se explica pela ascensão da COFCO. Ainda assim, essa mudança nas fatias de mercado pode exagerar o tamanho do desafio real. Inicialmente tratada com “hostilidade particular” pelas empresas ABCD, que buscavam “manter seu controle oligopolista sobre as exportações de soja”, a COFCO foi forçada a construir alianças com as corporações tradicionais, chegando a firmar um acordo preferencial com a ADM. Se não pode vencê-los, junte-se a eles.

    Concentração corporativa e a política sul-americana

    É improvável que a ascensão da COFCO traga concorrência efetiva ao setor, limitando-se a aumentar de quatro para cinco o número de empresas que comandam o oligopsônio da soja sul-americana. Dado o foco dessas companhias em processamento, comercialização e logística, o processo material de cultivo da soja continua a ser realizado por uma multidão de agricultores, grandes e pequenos. Uma pequena minoria detém vastas extensões de terras agrícolas e consegue preservar algum grau de autonomia em relação às gigantes do comércio. Estimativas com dados de meados da década de 2010 indicavam que sete gigantescas empresas de gestão agrícola—pools de siembra, como são chamadas na Argentina—controlavam quase 7% de todos os hectares plantados com soja na Argentina, no Brasil e no Paraguai. Somente no Brasil, cinco delas (incluindo a Amaggi) representavam cerca de 5% da área plantada de soja.

    No entanto, por maiores que sejam, essas são as exceções. A imensa maioria dos produtores de soja é significativamente menor, incluindo um grande contingente de médios e pequenos agricultores que, devido à sua escala, estão profundamente subordinados ao oligopsônio comercial. Não apenas são tomadores de preço, como perderam a maior parte do controle de suas próprias operações. “A natureza e a ‘autonomia da agricultura’ são cada vez mais disciplinadas e estruturadas por formas externas de gestão, baseadas na aplicação de pacotes tecnológicos e na logística de serviços agrícolas”, escreveram Oliveira e Hecht. Na Argentina, essa transformação da agricultura é chamada de sojización, caracterizada por “níveis mais elevados de capitalização, mecanização, investimento estrangeiro e economias de escala”.

    A base política representada por essa multidão de agricultores, ligada ao setor mais dinâmico das economias da região, poderia, em princípio, ter sido mobilizada contra o oligopsônio, exigindo uma organização diferente da cadeia de suprimento. Mas, em vez disso, grupos rurais subordinados, desconfiados dos governos de centro-esquerda que presidiram a consolidação do oligopsônio comercial, viraram-se bruscamente para a direita. No Brasil, esses produtores de soja radicalizados ascenderam nas associações estaduais do setor até hegemonizar a política rural em escala nacional, fornecendo a Bolsonaro uma base eleitoral fundamental. Esse processo marcou o surgimento do que Caio Pompeia denomina agrobolsonarismo.

    Um desenvolvimento semelhante pode ser identificado na Argentina. Em 2008, quando o governo de Cristina Kirchner tentou aumentar os impostos sobre as exportações de soja, foi derrotado de forma contundente por uma grande coalizão, em um conflito que ficou conhecido como crise del campo. Diana Córdoba e seus coautores descreveram a crise como um “protesto rural de escala sem precedentes, no qual interesses rurais diversos e historicamente fragmentados se uniram em uma mobilização que durou meses”. E seguiram:

    Proprietários de terras, empreiteiros, trabalhadores, transportadores e outros atores rurais—representando a elite agrária, pequenos produtores e a classe trabalhadora rural—atuaram conjuntamente, utilizando caminhões e maquinário agrícola para montar bloqueios em estradas rurais e interromper a circulação de produtos agrícolas (e de outros bens) em toda a principal região produtiva do país.

    Alguns autores argumentaram que as origens do movimento de direita na Argentina—primeiro com a eleição de Mauricio Macri em 2015, depois com a vitória de Javier Milei em 2023—podem ser encontradas justamente nessa crise de 2008. Tanto na Argentina quanto no Brasil, portanto, a transformação econômica liderada pelas gigantes do comércio de grãos aumentou a vulnerabilidade externa dos países ao mesmo tempo em que lançou as bases de uma política antidemocrática. Esses exemplos recentes da história sul-americana mostram que a concentração corporativa no sistema agroalimentar global não apenas ameaça a segurança alimentar e intensifica as mudanças climáticas, mas também enfraquece as instituições democráticas. Quando os grupos indígenas enfrentaram a Cargill no início deste ano, não eram apenas seus meios de subsistência que estavam em jogo.

  3. O limbo argentino

    Comentários desativados em O limbo argentino

    A vitória eleitoral retumbante de Javier Milei em outubro de 2025 transformou a conjuntura argentina. O que parecia ser um governo vacilante, consumido por escândalos e tensões cambiais, transformou-se em ampliação do poder do mandatário argentino, contra todas as previsões. Seu partido, La Libertad Avanza, duplicou a representação parlamentar e ganhou projeção nacional, impondo-se em quinze províncias. Esse apoio inesperado das urnas–concedido mais pelo esgotamento social e pelo medo do caos do que por um entusiasmo genuíno–permitiu ao governo libertário avançar com uma contrarreforma trabalhista de brutalidade sem precedentes, desmantelando proteções históricas e flexibilizando o mercado de trabalho com a aquiescência de uma oposição fragmentada e de um sindicalismo majoritariamente passivo, que em muitos casos parece conceber-se como mero administrador de benefícios para um núcleo cada vez mais reduzido de trabalhadores formais.

    Tudo isso ocorre em um cenário de profunda crise econômica, em que o desemprego começa a ser um problema estrutural, o poder de compra dos salários e das aposentadorias despenca e a precariedade no trabalho tornou-se a norma para milhões de pessoas. Em um contexto em que qualquer poder é frágil e a legitimidade se constrói sobre areias movediças, a análise a seguir reconstitui o caminho que levou a esse ponto crítico. Mais do que a consolidação de um poder absoluto, a vitória de Milei é sentida como uma “segunda chance” concedida por uma sociedade que, embora atingida por uma crise econômica que parece não ter fim, não encontrou uma alternativa clara na oposição.

    Hoje, a liderança de Milei se apoia em um equilíbrio de forças muito particular: a aliança pragmática com os governadores, o respaldo do poder econômico local e um apoio estratégico dos Estados Unidos, que olham para a região pela velha perspectiva da Doutrina Monroe. O resultado eleitoral confirma que a velha forma de fazer política na Argentina mudou. Já não se busca o consenso por meio de grandes partidos e alianças extensas, mas a construção provisória por meio de uma polarização constante e negociações diretas com setores fragmentados. No entanto, por trás dessa imagem de vitória, permanece a dúvida se esse resultado é uma solução definitiva ou apenas conseguiu disfarçar, por um tempo, as profundas fissuras que atravessam o país.

    Menos votos, mais poder

    No pleito de outubro de 2025, o partido La Libertad Avanza (LLA) alcançou 40,2% dos votos em nível nacional, consolidando-se como a primeira força ante um peronismo que, apesar de concorrer com chapas fragmentadas, manteve uma base eleitoral próxima a 32%. Os resultados confirmam a inviabilidade de terceiras vias, reduzindo o cenário político a um confronto binário que define os termos da disputa rumo às eleições presidenciais de 2027. Ao aglutinar o voto antiperonista—uma identidade reativa e transversal a uma parte da sociedade argentina—, Milei conseguiu manter sua base e deslocar as outras forças de direita, incluindo o PRO, partido liberal-conservador do ex-presidente Macri (2015-2019), cujo apoio foi fundamental para o segundo turno de 2023. Enquanto isso, o peronismo se confirma como a única força com poder real para se colocar como alternativa, apesar de seus próprios tropeços estratégicos.

    No entanto, essa vitória encerra um paradoxo. Entre o segundo turno de 2023 e as eleições legislativas de 2025, o governo perdeu mais de cinco milhões de votos, passando de 14,5 para 9,3 milhões. Ou seja, 60% do eleitorado não se identifica com o mileísmo: 32% votaram na oposição e cerca de 34% se manifestaram por meio de uma abstenção recorde, a mais alta desde o retorno da democracia em 1983. Isso permite inferir que não houve o fortalecimento ideológico de um projeto com mais retórica do que resultados, mas uma “segunda chance” que revela uma crise de legitimidade estrutural. 

    Nesse contexto, a estratégia libertária consiste em atuar como uma minoria intensa que capitaliza a fragmentação alheia e a crescente desconexão da sociedade com a política profissional. Em termos concretos, a partir de dezembro de 2025, o espaço libertário não apenas duplicará a presença na Câmara dos Deputados, mas também ampliará significativamente a bancada no Senado, renovada em um terço das cadeiras em 8 dos 23 distritos eleitorais do país. Na Câmara Baixa, onde todas as jurisdições tinham cargos em disputa, o peronismo (Fuerza Patria) manteve 45 de suas 46 cadeiras. Provincias Unidas, uma aliança de governadores que buscou se constituir como terceira via, conseguiu apenas sete cadeiras, enquanto a Frente de Esquerda obteve quatro. Este resultado eleitoral fortalece, sem dúvidas, o governo, já que, sob a nova composição do Congresso, ele tem a possibilidade de blindar os vetos às iniciativas de ajuste e ampliar capacidade de marcar a agenda parlamentar, tal como demonstrou com a aprovação do orçamento geral no final do ano e a redução orçamentária nas áreas de ciência, educação e universidades.

    Territorialmente, o mileísmo ultrapassou sua origem metropolitana para se nacionalizar, impondo-se em 15 das 24 jurisdições. Este avanço é particularmente significativo na Grande Buenos Aires e nos grandes centros urbanos do interior, como Córdoba, Mendoza e Rosário.

    A geografia eleitoral da LLA amalgama duas realidades sociais contrastantes: por um lado, setores precários e classes médias empobrecidas, camadas em que a rejeição à “casta” canaliza a frustração daqueles que viram sua qualidade de vida se deteriorar rapidamente na última década. Isso é especialmente significativo entre os jovens que já não encontram no peronismo uma ferramenta de ascensão social.

    Outro bastião do apoio eleitoral a Milei são os corredores produtivos em áreas de agro-serviços, onde prevalece uma ideologia anti-impostos e a demanda por “ordem” pró-mercado. A ruptura com o passado peronista parece ser a única saída possível para os problemas históricos de ambos os setores, e a LLA a única força capaz de levá-la adiante. Daí o acerto do slogan da campanha: “A Liberdade Avança ou a Argentina Retrocede”.

    A nacionalização da marca libertária

    Essa aliança de classes é precária e se sustenta fundamentalmente na incapacidade da oposição de articular uma alternativa e na desilusão generalizada com a política. Mas, apesar dessa apatia evidente, poucas eleições de meio de mandato haviam gerado tanta especulação, narrativas contraditórias e nervosismo na mídia e nos grupos políticos. Em meio à indiferença de boa parte da população, os círculos de poder, a mídia e o universo mais politizado percebiam essa eleição como um divisor de águas cujo resultado poderia tanto pôr fim ao ciclo político de Milei—e desencadear turbulências econômicas de consequências incertas—quanto relançar seu governo, como de fato aconteceu.

    A inquietação tem fundamento na notória transformação do sistema partidário e do sistema político que a Argentina vem sofrendo em decorrência da irrupção libertária e cujo desfecho ainda está em aberto. O contraste com o passado foi o eixo central da campanha libertária. No entanto, para conquistar alcance nacional, Javier Milei teve de cimentar sua estrutura política em alianças pragmáticas com poderes locais. Esse processo de nacionalização foi liderado por Karina Milei, apontada como a principal estrategista e responsável por tecer acordos conjunturais em cada província. A elaboração das listas priorizou tanto figuras alheias à política tradicional quanto perfis técnicos desconhecidos, uma aposta que capitalizou com sucesso o clima antipolítico persistente e os baixos níveis de participação eleitoral.

    A expansão do LLA representou uma reconfiguração do mapa partidário e dos mecanismos históricos de construção política na Argentina. Enquanto o peronismo e o radicalismo—as duas grandes estruturas partidárias do século XX—operaram durante décadas com base em redes territoriais sólidas e uma militância massiva, hoje esses modelos são vistos como vestígios ineficientes de um passado distante. O LLA, fundado apenas em 2021, rompeu com essa tradição: sem governadores, sem estrutura territorial prévia e com uma representação legislativa mínima, alcançou a vitória em 2023, erigindo Milei como o primeiro presidente autenticamente outsider da história argentina.

    Apesar dessa fragilidade estrutural, Milei demonstrou notável ousadia política para forjar acordos de governabilidade e projetar sua força rumo às eleições de meio de mandato, apoiando-se no carisma e na projeção nacional de sua figura. Isso implicou uma profunda alteração no discurso público, no qual o partido no poder se posiciona como a ruptura definitiva com um passado qualificado como populista, corrupto ou “woke”, e que teria levado o país à ruína econômica.

    2025, o vertiginoso ano libertário

    O que torna surpreendente o resultado eleitoral de 2025 é o caminho sinuoso que o governo percorreu para chegar até lá. O próprio Milei apresentou as eleições como um plebiscito sobre sua gestão, uma aposta que, até o dia anterior, parecia suicida. Vale lembrar que 2024 havia sido um ano de ouro para Milei, já que sua grande propaganda consistia em ter colocado um freio na inflação—embora o preço fosse um ajuste brutal e uma moeda sustentada artificialmente. Em contraste, ao longo de todo o ano de 2025, o governo avançou entre erros, danos autoinfligidos e um pântano de escândalos e gafes midiáticas, preso em sua própria retórica e diante de números econômicos que acendiam vários alarmes.

    Em fevereiro, surgiu o escândalo da criptomoeda Libra, promovida publicamente por Milei em suas redes sociais, o que impulsionou uma forte alta, seguida, em questão de minutos, por um colapso que deixou mais de 1.000 prejudicados e prejuízos de cerca de 280 milhões de dólares. A queda resultou em denúncias criminais e pedidos de impeachment na Argentina e nos Estados Unidos, onde se investiga se o presidente participou de uma manobra fraudulenta. Em abril, começaram a ocorrer turbulências na taxa de câmbio, e o governo recorreu a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) no montante de US$ 20 bilhões para sustentar o valor do peso e montar um esquema para sair dos controles cambiais que havia herdado dos governos anteriores.

    Esse empréstimo consolidou a Argentina como o maior devedor do FMI, concentrando impressionantes 34% do crédito total do organismo; após a aprovação, em 2025, de um novo pacote de US$ 20 bilhões, a dívida total ascendeu a US$ 65 bilhões, um valor que supera até mesmo o de nações em conflito bélico, como a Ucrânia. Ao mesmo tempo, esse empréstimo revela a existência de uma reciclagem de tecnocratas na gestão do Estado, já que, como bem observa María Haro Sly, a equipe econômica de Milei “não representa uma vanguarda nova e ousada, mas um grupo de tecnocratas já conhecidos, provenientes de experiências neoliberais anteriores, muitas das quais culminaram em crises estrondosas.”

    O cenário agravou-se em julho, quando começou uma disputa de vetos e rejeições de decretos no Congresso, o que complicou a governabilidade e a iniciativa política do governo. Outro grande escândalo ocorreu em agosto, pois vieram à tona áudios nos quais se denunciava que Karina Milei, irmã do presidente e principal operadora política do LLA, recebeu subornos de prestadores de serviços e fornecedores de medicamentos do Estado. Em setembro, mais um revés: descobriu-se que o principal candidato governista na Província de Buenos Aires, José Luis Espert, estava sendo financiado por um traficante de drogas com um pedido de extradição dos Estados Unidos. Esse conjunto de escândalos atingiu o momento mais crítico dois dias antes das eleições, com a renúncia de dois ministros.

    É importante considerar que o problema mais complexo surgiu justamente na frente em que o governo se considerava mais forte: a econômica. Nas semanas que antecederam as eleições, novas tensões cambiais impulsionaram a alta do dólar e provocaram micro-desvalorizações do peso, o que colocou em risco o programa anti-inflacionário. A orientação econômica, liderada pelo ministro da Economia, Luis Caputo, não se baseia na ortodoxia liberal de conter a emissão monetária, mas na estratégia de desvalorizar artificialmente a moeda, queimando as reservas em dólares do Banco Central no mercado cambial local.

    “É a inflação, estúpido!”

    ​​Para o programa macroeconômico do governo, conter a valorização do dólar, reduzir a inflação e estabilizar a macroeconomia significam basicamente a mesma coisa; por isso, a volatilidade da taxa de câmbio é um fator político de primeira ordem. O problema é que essa política anti-inflacionária se baseia na disponibilidade de reservas em dólares do Banco Central. Quando estas começam a escassear, o nervosismo aumenta. E foi exatamente isso que aconteceu dias antes da eleição, quando os mercados e a população começaram a ficar nervosos diante da escalada do valor do dólar e do possível repasse aos preços, o que ameaçava uma aceleração inflacionária e o retorno de velhos traumas, em particular o da hiperinflação de 1989. Como aponta Mercedes D’Alessandro, a perda de poder aquisitivo com o simples passar das horas marcou a experiência vital de uma sociedade que, na década seguinte, pagou um preço muito alto pela estabilidade monetária: congelamento salarial, destruição da indústria, privatizações, endividamento externo e aumento do desemprego. No entanto, cada promessa de “ordem macroeconômica” continua sendo, até hoje, uma mensagem que combina medo e esperança futura.

    Por isso, para a maioria dos argentinos, a inflação continua sendo o principal parâmetro para medir o sucesso ou o fracasso da gestão, e é aí que o governo encontrou sua maior força. Em outubro de 2025, o índice mensal de 2,3% e o anual de 31,3% contrastaram fortemente com o fantasma dos 160% deixados pelo governo peronista de Alberto Fernández (2019-2023). Essa “vitória” provisória sobre os preços também permitiu a Milei conservar uma parte vital do apoio popular—mesmo quando o bolso da população sentia o rigor do ajuste—, disciplinar a oposição e absorver completamente boa parte do espaço do centro e de toda a direita.

    No entanto, essa política macroeconômica, centrada em conter a inflação por meio do controle da taxa de câmbio, tem consequências profundas na microeconomia. No último ano, as vendas no varejo caíram mais de 26%, e o consumo de massa, 7,5% em relação ao ano anterior, chegando a quase 17% em algumas áreas, o que empurrou a economia para um cenário de estagnação com inflação. Embora a inflação mensal tenha caído rapidamente nos bens de consumo, essa conquista teve um alto custo social: salários e aposentadorias ficaram estagnados e a desigualdade se aprofundou. Ao mesmo tempo, o setor industrial registrou níveis de ociosidade semelhantes aos da pandemia e o desemprego começou a se tornar um problema estrutural.

    Essa obsessão com a inflação não é apenas política ou econômica, mas também social, e é aqui que se evidenciam os pontos fortes e os limites do programa de Milei. A moeda é muito mais do que um instrumento comercial; é a estrutura simbólica que sustenta a relação de confiança entre a cidadania e o Estado. Representa a possibilidade de planejar o futuro e constitui o sinal primordial da organização social. No contexto atual, o peso conseguiu recuperar suas funções como unidade de conta e meio de troca, mas ainda não se tornou, para a cidadania, uma reserva de valor confiável. As expectativas de câmbio em pesos se acalmaram, mas não as de poupança, que continuam subordinadas à cotação do dólar, o que deixa o peso como uma ferramenta para o presente, mas incapaz de sustentar uma visão de longo prazo.

    “Yankees come home”

    Nesse contexto caótico, sufocado pela valorização quase diária do dólar, o governo recorreu à ajuda de Donald Trump e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em uma manobra tão inesperada quanto eficaz. O acordo estabeleceu uma linha de swap cambial de até US$ 20 bilhões entre o Banco Central da República Argentina (BCRA) e o Tesouro, que também adquiriu títulos argentinos. Esses recursos foram destinados, por um lado, ao pagamento de vencimentos ao FMI e, por outro, a intervenções cambiais para conter a escalada do dólar no mercado informal e reduzir drasticamente a volatilidade antes das eleições. Tratou-se de um dos maiores pacotes de assistência direta já concedidos pelos Estados Unidos à América Latina, bem como de uma intervenção explícita na política eleitoral de um país estrangeiro raramente vista.

    Esse pacto com Washington funcionou como um salva-vidas eleitoral para o governo libertário, sem o qual dificilmente teria chegado competitivo às eleições. A aliança se baseou tanto na afinidade ideológica quanto no interesse geopolítico dos Estados Unidos de conter a expansão da China na região por meio de seu principal parceiro local. Por sua vez, o acordo resultou em um novo marco de cooperação comercial no qual a Argentina se comprometeu a facilitar a entrada de produtos norte-americanos—desde medicamentos e tecnologia até maquinário e veículos—, com contrapartidas até agora pouco claras por parte dos Estados Unidos

    No entanto, a geopolítica desse pacto visa o afastamento da China da região, que se tornou o principal destino de exportação da soja e da carne argentina em 2024-2025. Por isso, a pressão de Washington para afastar Buenos Aires da influência chinesa colocou em questão também a estrutura material da balança comercial argentina. Inicialmente, as entidades rurais comemoraram a redução das retenções sobre as exportações, sob a suspeita de que um alinhamento excessivamente rígido com Trump pudesse colocar em risco a relação com seu principal comprador. Para um país que exporta para a China fundamentalmente commodities agroindustriais, existe a ameaça de deslocamento comercial da China para países que considere “mais confiáveis”, como o Uruguai ou o Brasil. No entanto, a vitória eleitoral transformou essa possível desconfiança do setor em um alinhamento incondicional com o governo libertário.

    A racionalidade do voto exausto

    Diante dessas considerações, a pergunta permanece: como ele conseguiu, então, vencer a eleição? Em primeiro lugar, é preciso levar em conta o medo que havia do risco iminente de uma crise ainda maior, provocada pela disparada do dólar e pelo retorno de uma inflação que desorganiza a vida cotidiana dos trabalhadores. O voto em Milei pode muito bem ter sido motivado pelo pânico de uma sociedade exausta por uma crise que já dura mais de 10 anos e que reduz cada vez mais a margem de subsistência das famílias. O medo de que o peso se desvalorize, os salários percam ainda mais poder de compra e o preço da cesta básica dispare pode ter influenciado uma racionalidade de curto prazo no eleitorado.

    Embora na Argentina menos de 5% da população economicamente ativa opere com moedas estrangeiras regularmente, existe uma percepção generalizada de que, quando o dólar sobe, os cidadãos empobrecem um pouco mais, pois o valor real de sua renda é corroído. Nesse sentido, a campanha de Milei concentrou-se em alimentar esse medo, mostrando que, se ele não fosse confirmado nas urnas, poderia ocorrer um caos econômico com consequências imprevisíveis. Em uma população com margens cada vez mais estreitas, essa psicologia do dia a dia não é insignificante. Em suma, o voto em Milei apresentou-se como uma garantia de que, na segunda-feira seguinte ao domingo eleitoral, não iria tudo explodir.

    Ao mesmo tempo, parece ter prevalecido a vontade de dar uma segunda chance ao governo. Um sentimento que está em sintonia com a percepção de que uma mudança de rumo no meio do caminho exigiria mais energia do que uma sociedade exausta está em condições de fornecer. Se considerarmos o fracasso retumbante dos dois governos anteriores—o liberal de Mauricio Macri (2015-2019) e o peronista de Alberto Fernández (2019-2023)—e a desorientação da oposição para articular uma agenda própria, não é de se estranhar que boa parte da população tenha optado por endossar provisoriamente o governo.

    O peronismo: entre a nostalgia e o labirinto

    Embora a inflação tenha deixado de ser o principal motivo de preocupação, a qualidade de vida piorou durante esse período. Desde a posse do novo governo, os salários reais sofreram uma forte contração superior a 15% e, em alguns setores—como no caso de certos funcionários públicos—, chega a se aproximar de 40%. Essas perdas salariais ocorreram em um contexto de deterioração geral das fontes de renda das famílias. Em particular, as aposentadorias e pensões—que absorveram uma parte substancial do ajuste dos gastos públicos—sofreram uma redução significativa: em termos reais, o valor mínimo atual é 7,2% inferior ao de novembro de 2023 e acumula uma queda superior a 25% em relação a dezembro de 2017. Paralelamente, a economia informal estagnou devido à queda da atividade econômica e, como apontamos, o desemprego está se tornando um problema cada vez mais grave no modelo libertário.

    A oposição peronista foi incapaz de capitalizar o descontentamento social gerado por esse contexto. Sua falta de propostas concretas durante a campanha revelou um receio não declarado em público: a profunda rejeição social provocada pela gestão de Alberto Fernández, marcada pela inflação, pela falta de iniciativa e por diversos escândalos. O resultado de 26 de outubro confirmou esse declínio; sob a bandeira da Fuerza Patria, o partido caiu para 31,7% em nível nacional e perdeu redutos históricos como a província de Buenos Aires. Embora mantenha as bancadas mais numerosas no Congresso, o peronismo perdeu capacidade de bloqueio parlamentar autônomo de que desfrutava até agora.

    Essa derrota evidencia que a liderança de Cristina Fernández de Kirchner já não é suficiente para coesionar o movimento. Isso desencadeou a consolidação de um bloco de governadores peronistas que estão entre os principais apoiadores políticos do governo de Milei, conferindo a seus representantes parlamentares o poder de aprovar ou vetar leis em negociações individuais. Atualmente, o espaço peronista enfrenta uma reordenação entre um kirchnerismo enfraquecido, o peronismo disperso dos distritos nacionais sem projeção nacional e o peronismo da Província de Buenos Aires. Este último tenta se reorganizar sob a figura de Axel Kicillof, atual governador e representante da ala progressista.

    Por sua vez, forças sociais ligadas ao peronismo, como o sindicalismo, naufragam sem poder intervir nessa constelação. O debate oscila entre a resistência frontal às reformas de Milei e uma adaptação pragmática com vistas às eleições nacionais de 2027. O desafio central continua sendo resolver o enigma econômico de como estabilizar o país e recuperar o crescimento—estagnado desde 2011—sem recorrer a ajustes brutais nem ao caos inflacionário. O certo é que aqueles anos “dourados” de crescimento com inclusão e recuperação das capacidades estatais, impulsionados pelo preço internacional das commodities, vividos durante o kirchnerismo (2003-2014), há muito são uma lembrança muito distante e sua evocação nostálgica seduz muito pouco.

    A motosserra ideológica

    O que se pode esperar após uma vitória clara, mas ainda assim frágil? Em primeiro lugar, é certo que o governo acelerará sua agenda conservadora e antifeminista. Essa postura se concretizou em medidas simbólicas e legislativas, como a declaração de 2025 como o “Ano da Defesa da Vida, da Liberdade e da Propriedade”, ou o impulso a projetos para revogar a Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). Este marco do movimento feminista certamente enfrentará um novo cerco em 2026, apoiado na nova configuração parlamentar e no fortalecimento de alianças com setores religiosos.

    Nesse contexto, é preciso considerar o surgimento na política de grupos evangélicos, que já contam com oito cadeiras afins. Embora seu peso esteja muito longe da densidade e capilaridade que possui no Brasil, o fato de mais de 15% da população professar essa fé o torna um fator social considerável. Apesar disso, não está claro como isso se traduz no plano político, já que não existe um bloco evangélico ou uma estratégia confessional unificada, nem se os fiéis dessas igrejas definem opções políticas com base em crenças religiosas.

    O inegável é que o rumo político na Argentina tem se deslocado para posições cada vez mais drásticas. Um exemplo foi o discurso de Milei em Davos, considerado o lançamento de um manifesto global contra o que ele denomina a “esquerda woke”, uma batalha cultural que não fica restrita aos púlpitos. Essa ofensiva se traduziu em ações diretas: desde a extinção do Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade até o corte de programas essenciais para as vítimas de violência de gênero. Neste novo mapa de poder, as universidades e os órgãos científicos também ficaram na linha de fogo. O governo os apontou como centrais de “doutrinação” comunista, transformando o que eram pilares da inclusão e da ascensão social em inimigos a serem desmantelados.

    A ofensiva contra o trabalho

    A vitória eleitoral impulsionou o governo a empreender as contrarreformas estruturais que almeja. Em particular, três reformas econômicas que há muito estão em discussão: a trabalhista, a tributária e a previdenciária. O avanço teve como marco mais notável a aprovação da Reforma Trabalhista no início deste ano, uma ofensiva brutal e sem precedentes contra o trabalho, os sindicatos e os mecanismos de proteção trabalhista. A nova legislação contou com o apoio de boa parte da oposição que, entre oportunismo, falta de reação e desprestígio, acompanhou uma medida que leva a outro nível o desmantelamento neoliberal das proteções sociais. O governo libertário mobilizou um argumento simples e refutado em múltiplas ocasiões: que a flexibilização trabalhista permitirá a criação de empregos formais, em uma situação de recessão e queda dos lucros.

    Mais uma vez, o discurso libertário responde à demanda dos setores empresariais pró-mercado que buscam reduzir as cargas tributárias e, ao mesmo tempo, apresenta-o como solução para os segmentos da população empobrecida e precarizada. Concretamente, a chamada “Lei de Modernização Trabalhista” introduz mudanças substanciais na Lei do Contrato de Trabalho e modifica o regime de negociação coletiva. Segundo o Instituto de Estudos e Formação da CTA Autónoma, a profundidade dessa reforma deve ser avaliada em três pontos principais: 1) a transferência de valor do trabalho para o capital; 2) o enfraquecimento dos sindicatos e restrições no direito à greve; 3) as mudanças na Lei do Contrato de Trabalho que fortalecem o poder dos empregadores e a disciplina laboral.

    Algumas precisões sobre a reforma dão uma ideia de sua radicalidade. A nova lei introduziu uma mudança de paradigma nas indenizações por demissão por meio do Fundo de Assistência Trabalhista (FAL). No novo esquema, o empregador contribui mensalmente com uma porcentagem do salário (entre 1% e 2,5%, dependendo do tamanho da empresa), mas isso é compensado por uma redução equivalente nas contribuições que hoje financiam o sistema público de previdência social. Na prática, as demissões nas empresas privadas seriam pagas com recursos retirados do sistema público de previdência social (ANSES), o que agravará o déficit das aposentadorias, pensões e abonos, além de reduzir os planos de saúde sindicais. Isso ocorre em um contexto em que aposentados e aposentadas se mobilizam todas as quartas-feiras para reivindicar um aumento em sua renda, algo que, com essa reforma, se tornará ainda mais difícil de atender.

    Outro ponto crucial é a mudança nos acordos coletivos de trabalho, que agora serão firmados por empresa e não por setor, o que fragmenta as negociações salariais, aumenta o poder dos empregadores e destrói o poder dos sindicatos. A lei também elimina o princípio da “ultraatividade”, que garante a vigência dos acordos coletivos vencidos até a assinatura de um novo, para evitar que as condições de trabalho fiquem sem regulamentação durante períodos de conflito ou de negociação.

    Esse princípio tem sido um importante mecanismo de defesa das condições de trabalho, ao garantir a estabilidade das proteções e regulamentações trabalhistas em situações de mudança ou em negociações estagnadas. A lei promove um corte que beira a eliminação do direito à greve. Amplia-se o número de atividades consideradas “essenciais” (sem que isso implique qualquer mecanismo de reconhecimento) e, portanto, com possibilidades limitadas de entrar em greve. Exige-se dos sindicatos que a convocação para a assembleia não afete o andamento das atividades laborais e que conte com a autorização do empregador no que diz respeito aos horários e à duração.

    Outras mudanças relevantes concentram-se na modificação da Lei do Contrato de Trabalho, em particular na organização do tempo de trabalho, nas indenizações e nas licenças. O projeto libertário propõe maior flexibilidade no regime de férias, que poderão ser fracionadas em períodos mínimos de uma semana e concedidas em qualquer momento do ano. A implementação do chamado “banco de horas” e a reorganização dos horários de acordo com as necessidades produtivas constituem outra novidade a favor do capital. A ideia do “banco de horas” consiste em acumular horas de trabalho que são compensadas posteriormente com dias de descanso, o que implica a abolição do regime de horas extras. Como novidade, o projeto de lei inclui um capítulo específico para o trabalho em plataformas que, na prática, não amplia direitos, mas responde de forma regressiva a uma problemática específica de um segmento de trabalhadores.

    Enquadrada nos discursos de “modernização” e “competitividade”, a iniciativa governamental ressuscita uma premissa de solidez empírica duvidosa: a ideia de que a desregulamentação do mercado de trabalho é um passo obrigatório para a futura criação de empregos de qualidade. No entanto, evidências recentes contradizem esse postulado. Desde o início do governo Milei, o emprego assalariado no setor privado não mostrou sinais de recuperação. Pelo contrário, registra-se uma redução superior a 280 mil postos de trabalho formais. Paralelamente, ganharam terreno as ocupações mais instáveis, como o trabalho autônomo e por conta própria, frequentemente mediadas por aplicativos digitais. Esse fenômeno tem acompanhado o aumento do número de assalariados que, apesar de terem um emprego registrado, encontram-se abaixo da linha da pobreza. Outro fenômeno é a expansão do pluriemprego como única via para enfrentar a crise. Longe de diminuir o desemprego estrutural, a perda de direitos e a crescente precarização exacerbaram a incerteza laboral.

    A fragilidade da abordagem flexibilizadora não é apenas prática, mas também conceitual. Da perspectiva da economia ortodoxa, o desemprego é uma distorção originada por salários elevados ou por obstáculos normativos. No entanto, essa visão omite a função orgânica que o desemprego desempenha no sistema capitalista. Seguindo a noção clássica de “exército industrial de reserva” de Marx, um conjunto de trabalhadores desempregados ou subempregados atua como um mecanismo de pressão que disciplina aqueles que ainda conservam o emprego, limitando o poder de negociação. Longe de ser uma imperfeição que o mercado tende a corrigir, essa reserva de mão de obra é uma engrenagem fundamental para a acumulação. Nesse sentido, o objetivo central da reforma não é promover o emprego, mas aprofundar esse controle. Ao baratear os custos da demissão, minar a negociação coletiva e multiplicar as formas precárias de contratação, concede-se ao capital maior margem de ação. A ameaça latente de ficar desempregado ou de sofrer uma deterioração das condições de trabalho constitui, assim, uma ferramenta eficaz de disciplina social.

    Um capitalismo de duas velocidades

    Para grande parte da classe trabalhadora, a flexibilização já é uma realidade cotidiana: a informalidade atinge 43,2% dos trabalhadores e o descumprimento dos direitos trabalhistas básicos tornou-se algo comum. Nesse contexto, o alerta de que um governo de extrema direita “ataca seus direitos” contrasta com a experiência cotidiana de milhões de pessoas para quem esses direitos deixaram de ser efetivos há muito tempo. Esse descompasso explica, em parte, por que setores que hoje não conseguem pagar as contas no fim do mês, veem seu poder de compra cair e sofrem com a precariedade estrutural, consideram plausível “experimentar algo novo” e dão seu voto à experiência “libertária”.

    O modelo econômico de Milei assenta-se em um pacote anti-inflacionário que combina o controle (não declarado) da taxa de câmbio, o ajuste fiscal, a contenção dos salários, a abertura das importações e a redução de impostos para as grandes fortunas. No entanto, essa desinflação está ancorada em uma forte política ortodoxa de ajuste fiscal e monetário que provocou uma queda drástica no consumo, nos salários e nas aposentadorias, ao mesmo tempo em que encareceu o país em dólares, afetando o turismo receptivo, enquanto favorece o turismo emissivo dos setores com capacidade de poupança.

    O modelo promove uma “reestruturação reacionária” do capitalismo local, voltando-se para uma economia de serviços e de exportação primária intensiva em energia, mineração e agroindústria. Por meio de incentivos, prioriza-se a atração de capital transnacional e de grandes grupos locais, oferecendo-lhes segurança jurídica e facilidades para a remessa de lucros, acompanhada de narrativas fantasiosas como a de transformar a Argentina no “quarto polo mundial de IA” por meio da produção energética. Esse modelo posiciona os investidores externos como os grandes vencedores, enquanto os empresários de pequenas e médias empresas (PMEs) e os trabalhadores e trabalhadoras enfrentam o fechamento de empresas, empobrecimento salarial e o aumento do desemprego. 

    Repolitizar a precariedade

    Para manter esse esquema diante do descontentamento social, o governo complementa sua política econômica com violência e repressão aos conflitos sociais, o que já foi alertado por organismos nacionais e internacionais de direitos humanos. A deterioração da qualidade de vida deu origem a múltiplas lutas, protestos e mobilizações em todo o país. O fechamento de empresas ou a redução de pessoal multiplicou as situações de conflito e gerou intensas manifestações de milhares de trabalhadores demitidos, embora, em geral, elas tenham permanecido desarticuladas entre si, em um contexto marcado pela desorientação e pela passividade da Confederação Geral do Trabalho.

    A Marcha Federal do Orgulho Antifascista e Antirracista LGBTQI+, realizada em 1º de fevereiro de 2025 em repúdio ao discurso de Milei no Fórum de Davos, não produziu a ruptura esperada nem conseguiu se consolidar como um espaço de resistência de longo prazo, embora tenha demonstrado grande capacidade de mobilização em um momento específico. De qualquer forma, houve alguns protestos que lograram grande atenção e adesão popular pelo forte caráter simbólico no imaginário da classe média argentina: as mobilizações de aposentados, trabalhadores de universidades e do Hospital Garrahan (um dos hospitais pediátricos mais prestigiados da América Latina), bem como os protestos contra os cortes nos subsídios por deficiência. Isso mostra que a luta social ainda está ativa e que o governo está muito longe de gozar da capacidade hegemônica de que se vangloria.

    Por isso, uma agenda de resistência diante do avanço libertário não pode se limitar a esperar passivamente pelo desgaste provocado por erros ou pela crise. A resistência existe e o clima de protesto não se acalmou, mas encontra-se desarticulado e carece de uma representação sólida no âmbito político. Qualquer freio ao projeto governista excludente requer reconectar a mobilização social com a representação política. É nessa articulação renovada entre sindicatos, partidos e movimentos que reside a chave para mudar o rumo de uma história ainda não decidida.

  4. Democracia fiscal

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    O último ano do terceiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva começou em 2026. Com eleições marcadas para outubro, o debate político tende a se concentrar na avaliação do atual governo. Os indicadores econômicos apontam que o período de 2023 a 2026 será marcado pelos menores níveis de desemprego da série histórica, pela menor taxa média de inflação da história e pela redução do déficit primário em quase 90%.1De R$ 207 bilhões para R$ 22 bilhões, de acordo com o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias. O gasto com políticas sociais também supera o de qualquer governo anterior. A pobreza e a extrema pobreza registraram as menores taxas da história.

    Ao longo dos últimos três anos, a política fiscal foi o aspecto da gestão econômica que esteve mais tempo sob os holofotes. Entre críticas de austeridade excessiva e acusações de irresponsabilidade fiscal, o ministro Fernando Haddad deixa a Fazenda tendo cumprido o que para muitos, em 2022, parecia improvável: recolocou o pobre no orçamento e, pela primeira vez, colocou os super-ricos no imposto de renda, concretizando o mote da campanha que reconduziu Lula ao Planalto. Em conjunto, a ampliação do gasto social voltado aos mais pobres, a aprovação do novo regime fiscal e, com ele, a recomposição das receitas, a isenção do imposto de renda para as camadas médias da distribuição de renda e a elevação da tributação dos mais ricos promoveram uma verdadeira transformação do arcabouço institucional da política fiscal brasileira. Apesar das críticas, o redesenho do pacto fiscal brasileiro consolida-se como o principal legado desta gestão.

    Entre 2003 e 2014, observou-se uma melhora expressiva na renda da população mais pobre, acompanhada de maior dinamismo no mercado de trabalho formal. A valorização real do salário mínimo teve papel central na redução das disparidades de rendimentos, e a expansão de benefícios sociais foi fundamental para induzir a demanda e ampliar a formalização da economia. Pesquisas domiciliares também mostram que a desigualdade de renda no país caiu de forma consistente ao longo desse período.2Como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e a Pesquisa de Orçamentos Familiares, ambas conduzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Mas, como a renda nacional se concentra fortemente no topo da pirâmide social, os instrumentos tradicionais de coleta de dados raramente captam o estrato em que a desigualdade atinge os níveis mais extremos. Além disso, como a renda desse grupo depende menos de salários e é composta majoritariamente por dividendos, lucros e rendimentos financeiros, as estatísticas do mercado de trabalho oferecem apenas uma visão parcial de seus ganhos.

    O uso de novas metodologias e bases de dados—especialmente aquelas baseadas nas declarações do Imposto de Renda—tornou mais nítida a assimetria da distribuição de renda no Brasil. Quando ordenamos a população do mais pobre ao mais rico, observamos que, até os 80% “menos ricos”, a sociedade é relativamente homogênea, o que torna, em certa medida, artificiais muitos dos recortes usuais de pobreza utilizados para segmentar grupos demográficos. A desigualdade começa a se intensificar entre os 20% mais ricos, aprofunda-se no décimo superior e torna-se extrema no 1% do topo. Em outras palavras, há mais disparidade no interior do grupo dos 10% mais ricos do que entre os 90% restantes da população. 

    Esse diagnóstico reforça as críticas do campo progressista ao enfrentamento limitado das oligarquias econômicas das primeiras gestões petistas. Houve redução da desigualdade nos governos Lula (2003–2010) e Dilma (2011–2016), mas em menor magnitude do que sugerem as pesquisas domiciliares e os dados do mercado de trabalho. A diferença torna-se particularmente evidente no topo da distribuição, especialmente na parcela da renda apropriada pelo 1% mais rico. Nesse segmento, a concentração de renda permaneceu praticamente estável ao longo dos primeiros governos do PT.

    O gráfico abaixo ilustra essa dinâmica ao comparar a evolução da renda dos 50% mais pobres com a do 1% mais rico entre 2002 e 2014. Para cada grupo, são apresentadas duas séries: a renda “de mercado” (antes de impostos e transferências) e a renda após tributação e transferências. A comparação torna visível como a política fiscal afeta cada estrato. Observa-se que a renda de mercado do 1% mais rico cresceu ligeiramente ao longo do período, enquanto o sistema tributário e a política fiscal tiveram impacto praticamente nulo na reversão desse quadro. Verifica-se, igualmente, um avanço modesto na renda de mercado dos 50% mais pobres. A parcela da renda nacional apropriada por esse grupo, no entanto, aumenta significativamente quando incorporados os efeitos das transferências.

    Os dados sintetizam alguns dos diagnósticos que se consolidaram no debate econômico dos últimos anos. Em primeiro lugar, evidenciam a chamada agenda negligenciada: ao preservar a regressividade do sistema tributário brasileiro, marcado pela isenção de dividendos e por alíquotas efetivas muito baixas no topo da distribuição, os primeiros governos do PT pouco alteraram a desigualdade entre os estratos mais ricos. Ao mesmo tempo, o gasto público direcionado aos mais pobres mostrou-se uma ferramenta poderosa para reduzir a desigualdade na base da distribuição, reforçando os avanços distributivos e no combate à pobreza observados no período.

    O gráfico também sugere o fenômeno da “compressão do meio” (middle squeeze).O aumento da participação na renda pós-política fiscal dos 50% mais pobres e do 1% mais rico implicou, necessariamente, a redução da fatia apropriada pelos demais 49%. Como a economia brasileira cresceu significativamente ao longo desses anos, todos os estratos registraram aumento de seus rendimentos médios. O grupo intermediário, porém, cresceu menos e viu sua participação na renda nacional diminuir tanto em relação à base quanto ao topo. Além das implicações econômicas, esse deslocamento distributivo teve consequências políticas importantes. As classes médias, não diretamente beneficiadas pelas políticas sociais e tampouco agraciadas com isenções tributárias generosas, foram um importante vetor de insatisfação política contra os primeiros governos do PT.

    Se o papel distributivo do Estado brasileiro for analisado exclusivamente pela lente das pesquisas domiciliares, o sistema tributário será, na melhor das hipóteses, neutro. Desde a redemocratização, o gasto público foi o principal canal de redistribuição de renda utilizado pelo Estado, não apenas por meio das transferências, mas também pela ampliação do acesso à saúde e à educação. Em outras palavras, o gasto público foi o maior contrapeso à regressividade da arrecadação, tornando a intervenção estatal, em seu conjunto, progressiva—processo que se aprofundou significativamente nas gestões petistas. A consolidação desses instrumentos distributivos representou uma mudança estrutural no padrão de atuação do Estado brasileiro, o que explica o apoio das classes populares ao presidente Lula e ao projeto político do PT ao longo das últimas duas décadas. 

    Há, contudo, limites à transformação da realidade distributiva do país quando baseada exclusivamente no lado da despesa. A extrema concentração de renda no topo não pode ser revertida sem uma mudança profunda na estrutura tributária. Ao mesmo tempo, a ampliação da capacidade redistributiva por meio do gasto público é restringida pelo próprio sistema de arrecadação, cuja estrutura, historicamente, onerou significativamente os setores médios enquanto praticamente isentou os mais ricos. Dados anteriores à vigência das reformas tributárias promovidas pelo atual governo demonstram que, no período recente, o brasileiro médio pagava 40% da sua renda em impostos (combinando os diferentes impostos diretos e indiretos), enquanto o 0,01% mais rico destinava metade dessa fatia ao pagamento de impostos e pagava menos de 3% de Imposto de Renda.

    O pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda

    Para concretizar o principal lema da campanha que conduziu Lula ao terceiro mandato, o presidente e sua equipe econômica tinham duas tarefas essenciais. Colocar o pobre no orçamento exigia revogar o Teto de Gastos, regra fiscal adotada em 2017 que impedia o crescimento real das despesas, restringindo o espaço orçamentário para políticas sociais e investimentos públicos. Incluir o rico no imposto de renda, por sua vez, implicava viabilizar uma agenda que nem mesmo no auge da popularidade de Lula, ao final de seu segundo mandato, conseguiu avançar. Em um governo eleito por margem apertada, sem maioria no Congresso e sob forte antagonismo da extrema direita, a tarefa parecia ainda mais improvável.

    O compromisso da equipe econômica de colocar “o pobre no orçamento” se tornou evidente mesmo antes do início formal do novo governo, durante as negociações da PEC da Transição. No rescaldo de uma gestão desastrosa da pandemia da Covid-19, após sete anos de governos reacionários e quatro anos de comando da extrema direita, a PEC garantiu o espaço orçamentário necessário para o pagamento do Bolsa Família e para o financiamento de outros programas sociais que constituíam parte inegociável do programa vencedor nas urnas. Sua aprovação no Congresso Nacional, no entanto, foi condicionada à apresentação, pelo novo governo, de uma regra fiscal que substituísse o Teto de Gastos a partir de 2024.

    Diante do estrangulamento orçamentário herdado, a expansão do gasto social em R$ 145 bilhões autorizada pela PEC era uma necessidade. O orçamento anterior para 2023 sequer previa recursos suficientes para a manutenção dos benefícios sociais existentes. Ainda assim, com esforços de recomposição de receitas e revisão de despesas, o resultado primário daquele ano registrou déficit de R$ 117 bilhões (descontados os passivos deixados pela gestão Guedes-Bolsonaro, como o pagamento de precatórios represados e dívidas com estados e municípios). Em outras palavras, o primeiro ano da política fiscal combinou responsabilidade social, econômica e institucional. Foi nesse contexto que se negociou a nova regra fiscal. Ao final de 2023, a despesa primária encontrava-se em um patamar elevado, próximo de 20% do PIB, que passou a servir de base para a aplicação do novo regime fiscal. 

    Batizado de Regime Fiscal Sustentável (RFS), o novo arcabouço representou um avanço em relação ao Teto por dois motivos principais. Primeiro, ao abandonar o congelamento real das despesas, introduziu um componente anticíclico: mesmo em períodos de desaceleração da economia, o gasto público pode continuar a crescer, permitindo que os frutos do crescimento econômico sejam apropriados pela população por meio da ampliação disciplinada dos serviços públicos e dos investimentos. Segundo, ao vincular o crescimento das despesas ao desempenho das receitas, o novo regime passou a desincentivar o uso de renúncias fiscais como atalho para “fazer política” sob a restrição do Teto. No regime anterior, o limite de gastos era fixado independentemente da arrecadação, ou seja, reduções de receita por meio de renúncias fiscais não afetavam diretamente o espaço das despesas. No RFS, ao contrário, a evolução da despesa passa a depender da arrecadação: a perda de receitas reduz o espaço fiscal, enquanto seu aumento permite ampliar os gastos.

    Novo paradigma tributário

    O realismo orçamentário inaugurado pela combinação da PEC da Transição com o Regime Fiscal Sustentável abriu caminho para uma mudança estrutural no sistema tributário. As medidas aprovadas no atual governo respondem, de forma inédita, à demanda por transformações mais profundas na economia brasileira. Inaugura-se, enfim, uma reconfiguração do regime tributário com potencial para enfrentar uma dimensão central da desigualdade social que o gasto público, isoladamente, não alcança: a extrema concentração de riqueza.

    As medidas econômicas adotadas ao longo dos três primeiros anos de governo revelam uma agenda orientada simultaneamente para a distribuição de renda e para o equilíbrio fiscal, baseada na recomposição das receitas, no fortalecimento da justiça tributária e na melhoria da eficiência alocativa. Pela primeira vez na história do país, uma ampla reorganização da tributação indireta foi aprovada em regime democrático. E, também de maneira inédita, a recomposição das receitas públicas passou a incluir medidas que chamam os mais ricos a contribuir mais para o financiamento do Estado.

    Para fins expositivos, a reestruturação tributária do atual governo pode ser dividida em três eixos principais: a reforma da tributação do consumo; a recomposição das receitas; e a reforma dos impostos de renda e patrimônio, especialmente do Imposto de Renda da Pessoa Física.

    No eixo do consumo, a nova arquitetura tributária resultou de uma iniciativa política intensa e ambiciosa: concluir uma reforma discutida no país há pelo menos duas décadas. A Emenda Constitucional n. 132/2023 promoveu uma ampla reestruturação do sistema tributário brasileiro ao substituir a lógica fragmentada dos tributos indiretos por um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de competência federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado por estados e municípios. 

    Entre as principais mudanças promovidas pela reforma, destacam-se o fim da tributação em cascata, a adoção do princípio do destino e a incorporação de mecanismos de justiça social. Ao permitir crédito amplo ao longo das cadeias produtivas e reduzir a cumulatividade, a reforma busca eliminar distorções que levavam empresas a integrar artificialmente etapas produtivas, selecionar insumos e tecnologias menos eficientes ou organizar suas cadeias por razões fiscais, e não econômicas. Na mesma direção, a tributação no destino reduz os incentivos à competição predatória entre estados por meio de benefícios fiscais. Isso tende a diminuir a “guerra fiscal” entre entes federativos e a reorganizar a geografia produtiva do país em torno de fundamentos econômicos reais, e não de vantagens tributárias.

    Embora concebida para ser neutra em termos de alíquotas, a reforma pode elevar a arrecadação estrutural ao promover maior eficiência econômica e ganhos de produtividade. Seus efeitos alocativos são acompanhados por medidas de caráter distributivo, como a desoneração da cesta básica e a introdução do mecanismo de cashback, que devolve aos consumidores de menor renda parte dos tributos indiretos pagos. Dessa forma, mesmo preservando a neutralidade formal do sistema, a reforma contribui para corrigir uma distorção histórica da tributação brasileira: o peso proporcionalmente maior dos impostos indiretos sobre a base da pirâmide social, decorrente do fato de que as famílias de menor renda destinam uma parcela maior de seus rendimentos ao consumo.

    O esforço de recomposição das receitas seguiu a mesma lógica de combinar maior eficiência econômica com promoção da justiça fiscal. Nesse eixo, incluem-se medidas como a reoneração dos combustíveis e a retomada do voto de qualidade no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), que restabeleceu a prevalência do interesse público em casos de empate no contencioso tributário e reduziu os incentivos para transformar disputas administrativas em estratégia financeira de postergação de pagamento de tributos. Na mesma direção, o governo procurou limitar as compensações tributárias, restringindo mecanismos automáticos e o uso excessivo de créditos, sobretudo os decorrentes de decisões judiciais.

    Também se insere nesse movimento a pactuação em torno da reversão gradual das desonerações da folha de pagamento, bem como a revisão de programas setoriais de grande custo fiscal, como o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), adotado em 2021 para atenuar os impactos negativos da pandemia. Além disso, a Lei Complementar 224/2025 procurou enfrentar o crescimento acelerado dos gastos tributários ao estabelecer um corte linear de 10% e criar diretrizes para um novo padrão de governança desses benefícios, com exigências de metas, prazos de vigência e mecanismos de monitoramento.

    Outras medidas articularam a correção de distorções econômicas à ampliação da arrecadação. O Decreto nº 12.499, de 11 de junho de 2025, por exemplo, reajustou as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em diferentes operações. A medida procurou reduzir assimetrias tributárias entre instituições com produtos semelhantes e aprimorar a incidência do imposto. Ao zerar o IOF sobre a repatriação de capital associado ao investimento direto, o decreto uniformizou o tratamento tributário desses retornos em relação às operações no mercado financeiro e de capitais, reforçando os incentivos à entrada de investimento estrangeiro. Na mesma direção, em dezembro de 2025 foi aprovada a elevação da tributação das fintechs, reforçando a isonomia concorrencial com outras instituições que oferecem serviços financeiros semelhantes. Também foram revistas as regras de tributação das apostas, com a introdução de mecanismos de corresponsabilização (inclusive para intermediários) voltados a coibir a operação irregular do setor e a mitigar seus custos sociais, como o endividamento e a dependência associados ao jogo.

    Finalmente, ao longo desta gestão, avançaram diversas medidas voltadas a ampliar a tributação sobre rendas de capital e grandes patrimônios. Entre elas, destacam-se a tributação de offshores e de fundos exclusivos, a elevação da alíquota do Imposto de Renda Retido na Fonte sobre os Juros sobre Capital Próprio, a instituição de uma tributação mínima sobre multinacionais por meio de adicional de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, a fixação de uma alíquota mínima para remessas de dividendos a não residentes e o combate a estratégias de elisão fiscal no investimento em fundos de previdência.

    Como resultado, a participação do imposto de renda no total das receitas primárias aumentou 1,4 ponto percentual ao longo do mandato. Em conjunto, o esforço de recomposição da capacidade arrecadatória deverá garantir mais de R$ 480 bilhões em receitas adicionais aos cofres públicos até o final de 2026.

    Lidas em conjunto, essas iniciativas ilustram o esforço da equipe econômica para transformar radicalmente a institucionalidade tributária do país, combatendo privilégios e distorções e, assim, tornando-a mais eficiente e justa. É nesse cenário que se insere a aprovação da reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). A aprovação da Lei nº 15.270, de 26 de novembro de 2025, integra um projeto mais amplo de gestão pública que se consolidou como vitória política graças à organização do campo popular, à articulação do governo e à construção de um consenso social em torno da urgência de enfrentar a extrema desigualdade brasileira.

    Esse acúmulo político e social foi construído ao longo de muitos anos, especialmente durante a atuação do PT na oposição. Já em 2018, a proposta de uma reforma tributária justa e solidária figurava no programa da chapa Lula–Haddad como resposta direta a um dos traços mais persistentes da economia brasileira: a coexistência entre elevados níveis de desigualdade e um sistema tributário que pesa proporcionalmente mais sobre a base da pirâmide social. Durante o governo Bolsonaro, a oposição manteve o tema da justiça fiscal no centro de sua agenda política. Em 2022, essa pauta se transformou em lema de campanha e, posteriormente, em uma das prioridades do programa de transição.

    A reforma do IRPF, neutra do ponto de vista arrecadatório, tem como mérito sua engenhosa simplicidade. Desde janeiro de 2026, quem ganha até R$ 5 mil por mês passou a ser isento do imposto de renda. A partir desse valor, a tributação cresce progressivamente até atingir incidência plena nos rendimentos mensais de R$ 7.300 ou mais. Para compensar essas isenções e descontos, pessoas com renda tributável superior a R$ 600 mil por ano passaram a pagar uma alíquota mínima, que pode chegar a 10% para quem recebe mais de R$ 1,2 milhão. Na prática, um tributo mínimo cobrado de cerca de 140 mil contribuintes permitirá reduzir o imposto pago por mais de 15 milhões de pessoas. Para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o benefício anual acumulado equivalerá a quase um salário a mais. 

    A medida promove maior justiça fiscal, abre novos caminhos para a disputa política e fortalece, na base de sustentação popular do governo, o vínculo com setores médios que até então permaneciam mais à margem da centralidade política do programa petista. Esse ponto ganha particular relevância diante da perda relativa de espaço da classe média no ciclo anterior de distribuição de renda. Ao ampliar a oneração tributária do topo da pirâmide, enfrentando a raiz da desigualdade brasileira, a gestão econômica de Fernando Haddad abriu caminho para a reconciliação dos setores médios com o projeto petista.

    Alguns aspectos do desenho da proposta contribuíram para facilitar sua tramitação. Em primeiro lugar, ao vincular a ampliação da isenção—uma pauta politicamente muito popular—a mecanismos de compensação no próprio Imposto de Renda, a proposta criou constrangimentos à sua rejeição. Além disso, em vez de aumentar a tributação de dividendos ou estabelecer alíquotas diferenciadas para distintos tipos de rendimento, a escolha por uma alíquota mínima simplificou tanto a implementação da medida quanto sua comunicação ao público. Por fim, a lógica paramétrica adotada, tanto no nível da alíquota mínima quanto nas faixas de renda a partir das quais ela passa a incidir, abre espaço para que a disputa por maior justiça tributária continue a ocorrer dentro dos próprios marcos estabelecidos pela nova lei.

    Além do acúmulo de iniciativas que prepararam o terreno para a reforma do Imposto de Renda e das qualidades da proposta em si, sua aprovação se deveu, em grande medida, à atuação política da atual gestão. Um elemento decisivo foi a capacidade do governo de transformar os vetos do Congresso ao aumento do IOF, em junho de 2025, em um debate público sobre o caráter antipopular de parte da atuação legislativa. A mobilização em torno da pauta “Congresso inimigo do povo” desencadeou uma ofensiva política nas ruas e nas redes sociais, questionando o papel do Legislativo na defesa de privilégios associados aos setores de maior renda. 

    O clima social teve papel decisivo, mas a atuação de alguns atores individuais também merece destaque. A centralidade que o presidente Lula atribuiu ao tema desde a campanha, o peso político do ministro Fernando Haddad, ex-candidato à Presidência que, em 2018, recebeu mais de 45 milhões de votos, e a relatoria sob a condução de Artur Lira, figura central na articulação da pauta legislativa dos últimos anos, ávido por abraçar uma agenda positiva, foram elementos-chave na tramitação da proposta. 

    Esse conjunto de fatores permitiu a um governo minoritário no Congresso aprovar o que parecia impossível para grande parte dos analistas. A reação social em defesa da justiça tributária, em particular, foi essencial para transformar o que parecia politicamente improvável em algo inevitável. Nesse sentido, tão relevante quanto o conteúdo da reforma e suas implicações materiais é o acúmulo político e ideológico produzido durante sua tramitação. O engajamento popular e a conscientização coletiva sobre a profundidade das injustiças tributárias no país são conquistas da esquerda e para a esquerda. A articulação entre a equipe econômica, partidos políticos e movimentos sociais colocou em xeque o senso comum segundo o qual o povo brasileiro seria contrário a uma maior tributação dos mais ricos e abriu uma nova frente de disputa política em torno de uma tributação mais justa.

    A mesma estratégia pode, agora, abrir caminho para a redução da jornada de trabalho, com mudança da escala e preservação dos salários. Trata-se de um passo civilizatório capaz de ampliar o tempo disponível, o bem-estar e a saúde das famílias brasileiras, com impactos econômicos que, no atual contexto do mercado de trabalho, tendem a ser nulos ou até mesmo positivos. Ao colocar essa agenda no centro do debate em um ano eleitoral, o governo sinaliza a intenção de aprofundar o caminho aberto pela reforma tributária: fazer do conflito distributivo não apenas um tema de política econômica, mas um verdadeiro eixo organizador da política e da mobilização social no país.

    Democratização do Estado e os governos do PT

    A ausência de reformas estruturais esteve no centro das críticas aos governos anteriores do Partido dos Trabalhadores (2003-2016). À direita, argumentava-se que o PT teria promovido uma redistribuição artificial da renda, não acompanhada de ganhos de produtividade, inicialmente possibilitada pelo boom das commodities e, após seu esgotamento, mantida às custas do desequilíbrio fiscal. À esquerda, sustentava-se que a bonança externa permitiu ao governo distribuir renda aos “de baixo” sem enfrentar os “de cima”, o que ficou conhecido como um “projeto de conciliação de classes”. Reconhecia-se, em parte, o caráter virtuoso dos governos petistas, mas apontava-se para seus limites diante das mudanças estruturais que o país demandava.

    Ainda assim, é preciso ressaltar que, mesmo que algumas medidas tenham sido menos ambiciosas que outras, muitas das reformas promovidas pelos primeiros governos do PT foram, de fato, estruturantes: ao redirecionar o esforço público para demandas historicamente negligenciadas, a presença da esquerda no governo contribuiu, objetivamente, para a democratização do Estado e da ação estatal.

    Diversos indicadores sintetizam os efeitos estruturais de um projeto que avançou no enfrentamento de chagas históricas do nosso país. No plano social, a combinação de políticas de transferência de renda com um ciclo de aquecimento do mercado de trabalho levou o Brasil a sair do mapa da fome. Programas como Luz para Todos, Mais Médicos e Cisternas ampliaram o acesso a serviços públicos essenciais e contribuíram para reduzir as desigualdades territoriais e sociais. A expansão do acesso ao ensino superior, com destaque para o sistema de cotas nas universidades—e sua extensão ao serviço público federal—ampliou a presença de pessoas negras em espaços de poder. No plano macroeconômico, o pagamento da dívida externa e a formação de mais de US$ 300 bilhões em reservas cambiais reduziram substancialmente a fragilidade do país diante de choques internacionais. 

    Por mais que esses avanços tenham sido viabilizados por um contexto internacional favorável, a condução da política econômica foi determinante para o ciclo virtuoso de crescimento econômico com redistribuição de renda e aumento no investimento público. O reconhecimento dos méritos das primeiras gestões petistas, no entanto, não é incompatível com a constatação de que, até pouco tempo, a estrutura oligárquica da economia e da política brasileira, marcada pela elevada concentração de renda e poder, não havia sido significativamente alterada. O terceiro governo Lula foi, sob essa ótica, o mais radical entre as gestões petistas.

    Durante as negociações do Regime Fiscal Sustentável, havia grande temor de setores progressistas de que a nova regra fiscal não significasse um verdadeiro rompimento com a lógica do antigo Teto de Gastos. O problema do Teto, longe de ser a mera existência de uma regra fiscal, eram as implicações que produzia para a dinâmica do gasto público. Ao impor um congelamento real das despesas, a regra pressionava o gasto social, incentivava a expansão de gastos tributários e se baseava em parâmetros que, ao longo do tempo, se mostraram pouco realistas. 

    A aprovação da PEC da Transição—que garantiu que a nova regra fiscal partisse de um nível de gasto público já elevado—, a garantia de crescimento real das despesas e a vinculação do crescimento das despesas às receitas são elementos fundamentais e consequenciais de distinção entre o atual regime fiscal e o Teto de Gastos. À luz dos resultados econômicos observados neste governo, torna-se evidente que os efeitos negativos que se atribuíam ao Teto não se manifestaram sob o RFS.

    Os resultados do período mostram uma expansão simultânea do emprego, do gasto social e do investimento público, acompanhada de uma redução da desigualdade medida pelas pesquisas domiciliares. O Benefício de Prestação Continuada passou de R$ 84,6 bilhões em 2022 (em valores de 2025) para R$ 127 bilhões. O Bolsa Família, que atendia cerca de 18 milhões de famílias em julho de 2022, alcançou 21 milhões no início do atual governo e vem registrando redução recente em razão da melhora do mercado de trabalho. Em conjunto, o gasto social teve o maior crescimento real em dez anos, 6,16%.

    O investimento público também voltou a crescer e deve encerrar o ano de 2026 no maior patamar da década: R$ 529 bilhões. Parte importante foram os investimentos em infraestrutura, que em 2024 bateram o recorde dos últimos três  mandatos presidenciais, totalizando R$ 261 bilhões. O número médio mensal de casas financiadas com o FGTS foi de 47 mil unidades, o maior volume da série histórica. Ao mesmo tempo, o desempenho da atividade econômica superou as expectativas de muitos analistas, que previam desaceleração sob o novo arcabouço fiscal: o PIB avançou e, nos últimos três anos, cresceu uma média anual de 3%, a maior em mais de quinze anos.

    Finalmente, mesmo com a expansão do gasto social e do investimento, o resultado fiscal apresentou melhora significativa. O déficit primário caiu de 2,09% do PIB em 2023 para 0,48% em 2025, e a média do mandato deverá ser a menor desde 2014. Tudo isso ocorreu em um contexto de minoria parlamentar no Congresso e sob uma política monetária restritiva ao longo de todo o período.

    Esse desempenho foi possibilitado por uma abordagem que reorganizou a política fiscal a partir de um princípio claro: conciliar justiça social, crescimento e credibilidade. O RFS mostrou-se necessário para enfrentar restrições fiscais que não apenas existem, como expressam o próprio conflito distributivo. No plano político, essas restrições decorrem da correlação de forças que sustenta o governo; no plano econômico, relacionam-se à capacidade instalada da economia, à gestão da dívida pública e à condução da política cambial. Soma-se a esse quadro uma menor tolerância à inflação, observada tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

    A dinâmica da economia brasileira sob o RFS e as mudanças tributárias implementadas ao longo do atual mandato evidenciam que, tão importante quanto o tamanho do gasto público, é quem o financia e quem dele se beneficia. A defesa de uma expansão fiscal indefinida não se confunde com a defesa de justiça fiscal. Trata-se de uma narrativa que ignora o conflito distributivo e desloca o foco do debate para o tamanho absoluto do gasto—que inclui uma parcela expressiva de despesas regressivas, favoráveis aos mais ricos—em vez de sua orientação e de suas fontes de financiamento.

    Como ilustram os dados sobre a distribuição de renda no Brasil, a capacidade do gasto público de influenciar a concentração da renda no topo é praticamente nula se não for acompanhada de mudanças tributárias mais profundas. A história do país, da queima do café aos programas de desoneração, é repleta de exemplos em que o expansionismo fiscal nada mais foi do que uma forma de socializar as perdas das elites em momentos de desaceleração econômica, aprofundando as desigualdades do país em nome da sustentação da atividade. De maneira inédita, a reorganização fiscal deste governo baseou-se na maior tributação dos mais ricos, na revisão do gasto tributário regressivo e na ampliação das transferências aos mais pobres. 

    A crítica progressista às primeiras experiências de governo do PT, somada ao trabalho político de formação e mobilização dos setores populares, contribuiu para amadurecer tanto o programa partidário quanto a condução da política econômica no terceiro governo Lula. Esse processo produziu uma agenda mais ambiciosa e transformadora. Diferentemente de um modelo baseado apenas na melhoria das condições na base da pirâmide social, sem enfrentamento aos privilégios no topo, este mandato permite afirmar que, pela primeira vez na história recente do país, os mais ricos passaram a pagar mais impostos ao mesmo tempo em que os mais pobres ampliaram seu acesso a transferências e políticas sociais.

    À medida que o calendário eleitoral se aproxima, qualquer balanço da política econômica deve levar em conta não apenas os resultados alcançados em emprego, inflação e desigualdade, mas também as transformações promovidas no arcabouço institucional da política fiscal brasileira. Em última instância, a reconstrução fiscal e tributária em curso representa também uma afirmação de soberania democrática: ao reformar as regras fiscais e tributárias, o governo procura traduzir, na estrutura do Estado, o projeto político que venceu nas urnas.


  5. A ilusão da Venezuela

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    À primeira vista, a lógica estratégica da ofensiva Estados Unidos–Israel contra o Irã parece difícil de identificar. Enquanto o presidente Trump enquadra a campanha no discurso da “libertação democrática”, prometendo derrubar a República Islâmica, o secretário de Estado Marco Rubio a descreve como um ataque preventivo. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, juntou-se a Rubio ao afirmar que os objetivos centrais são a destruição dos programas nuclear e de mísseis do Irã e a degradação de suas capacidades navais: não exatamente uma mudança de regime, mas uma estratégia de coerção voltada a reduzir as capacidades militares do país.

    Os objetivos de guerra dos Estados Unidos, no entanto, não devem ser buscados nas declarações oficiais do governo Trump, mas nas transformações de longo prazo da estratégia estatal americana. Desde o início da década de 2010, Washington tem se afastado cada vez mais de ocupações militares em larga escala, privilegiando o uso de poder aéreo, instrumentos financeiros, pressão diplomática e assassinatos ou remoções de adversários-chave. A meta tem sido impor sua vontade a outros Estados enquanto limita os custos domésticos e geopolíticos associados a uma presença militar prolongada—uma espécie de engenharia política à distância.

    O episódio da Venezuela marcou o ápice dessa abordagem, demonstrando como um ataque direcionado contra um líder específico, combinado com intensa pressão externa, pode produzir mudança política sem os custos do controle territorial. Ao que tudo indica, é esse mesmo roteiro que Washington gostaria de seguir no Irã. Trump invocou explicitamente o precedente venezuelano quando, após ordenar o assassinato de Ali Khamenei, declarou que o filho do aiatolá, Mojtaba Khamenei, seria um sucessor “inaceitável”: “Preciso ter voz na escolha, como aconteceu no caso de Delcy.”

    Mas Washington tem, de fato, capacidade de impor seu líder preferido ao Irã, como anuncia ter feito após a captura de Maduro? As evidências sugerem que não. A República Islâmica possui uma arquitetura de poder complexa e uma coalizão governante relativamente coesa. Ao longo de mais de três décadas, Ali Khamenei transformou o Gabinete do Líder Supremo em um vasto aparato burocrático e de segurança, inserido em uma densa rede de instituições militares, clericais e econômicas. Esse “complexo militar-bonyad”, como o defini anteriormente, não pode ser derrotado por uma estratégia de simples decapitação. O resultado mais provável da campanha Estados Unidos–Israel será reforçar a coesão do aparato de segurança do Estado iraniano, ao mesmo tempo em que desencadeia um conflito mais amplo na região.

    Gerenciamento de regime

    A atual abordagem dos Estados Unidos em relação ao Irã tem raízes profundas. A instabilidade financeira provocada pela crise de 2008, somada ao crescente cansaço doméstico com as ocupações do Iraque e do Afeganistão e à intensificação da competição com a China, levou a uma reorientação da estratégia imperial. Em vez de custosas tentativas de mudança de regime e engenharia estatal, Washington passou a buscar maior influência sobre instituições já existentes em outros países, ao mesmo tempo em que preservava margem de manobra para um confronto entre grandes potências de longo prazo na Eurásia e no Indo-Pacífico.

    O bombardeio da OTAN contra a Líbia em 2011, que buscava remover Muammar Gaddafi do poder e resultou na morte de cerca de 50 mil líbios, sinalizou essa nova orientação. Mesmo enquanto estadistas americanos continuavam a mobilizar o discurso da democracia e do humanitarismo, seus projetos de transformação política abrangente deram lugar a um repertório mais restrito de política externa: estabilização, contraterrorismo, gestão de alianças e proteção de corredores energéticos. Trump deu continuidade a essa herança, embora tenha, em grande medida, abandonado a linguagem da democracia e da ordem internacional baseada em regras que constituía a gramática moral do poder americano.

    Um dos pilares dessa virada pós-2008 foi a expansão da guerra financeira e comercial como substituto para intervenções militares terrestres. As sanções deixaram de ser um instrumento marginal de política externa para se tornar um mecanismo central de reorganização da inserção internacional de um Estado-alvo e de compressão de sua economia política doméstica. Seu objetivo é sistêmico, e não tático: restringir o acesso a financiamento, redes de abastecimento, serviços de seguro, rotas de transporte e sistemas de liquidação financeira, forçando terceiros a escolher entre participar da ordem centrada nos Estados Unidos e manter vínculos comerciais com o país sancionado.

    As sanções econômicas foram uma das principais armas do governo Obama, posteriormente reforçadas pelas tarifas de Trump: um instrumento contundente para generalizar fricções econômicas, elevar custos de transação e disciplinar cadeias de suprimento, frequentemente operando em conjunto com controles de exportação, mecanismos de triagem de investimentos e restrições financeiras. Essa combinação de sanções e tarifas fortaleceu a infraestrutura da coerção econômica, não necessariamente por permitir a Washington produzir resultados políticos específicos, mas por ampliar o leque de instrumentos à sua disposição para punir, dissuadir ou compelir determinados comportamentos.

    Um segundo pilar consiste em transferir parte da responsabilidade pela coerção externa para Estados aliados, incentivando-os a absorver maiores custos na linha de frente, enquanto os Estados Unidos fornecem o guarda-chuva de escalada, inteligência, logística e capacidades militares de alto nível. A OTAN é o exemplo mais claro. A virada estratégica pós-2008 foi acompanhada por uma pressão americana constante sobre os parceiros europeus para elevar os gastos com defesa como proporção do PIB. Trata-se menos de uma exigência pontual do que de um sinal estrutural de que os compromissos americanos se tornaram cada vez mais condicionais à partilha do fardo por parte dos aliados. Também aqui há mais continuidade do que ruptura entre Obama e Trump, ainda que Trump costume expressar a mesma lógica em termos mais ásperos.

    Essa reorientação vai além da Europa. Washington busca preservar sua primazia estratégica ao mesmo tempo em que redistribui responsabilidades operacionais para fora e para baixo, o que lhe permite exercer coerção com maior liberdade sem se envolver em campanhas abertas e prolongadas de estabilização. Nesse sentido, a ideia de “liderar nos bastidores” deixa de ser apenas um recurso retórico e passa a funcionar como uma necessidade operacional. No Oriente Médio, os Estados Unidos passaram a última década incentivando aliados regionais a policiar seu próprio entorno de maneira alinhada aos interesses americanos. Isso ficou particularmente evidente após a Primavera Árabe, quando o bloco do Golfo liderado pela Arábia Saudita ajudou a suprimir ou neutralizar levantes populares e a consolidar uma ordem regional compatível tanto com as prioridades do Golfo quanto com as de Washington. Essa redistribuição de responsabilidades também ampliou a margem de manobra de Israel, já que o respaldo americano às ações israelenses, especialmente desde o 7 de outubro, se manteve amplamente consistente tanto no governo Biden quanto no de Trump.

    Nesse contexto, a estratégia de “gerenciamento de regime” se apresenta como uma solução atraente para um dilema estratégico recorrente: Washington já não consegue garantir os resultados desejados—conformidade, realinhamento ou neutralização de regimes hostis—por meio de guerras em grande escala voltadas à mudança de regime. Esse modelo foi aplicado, na Venezuela e em outros casos, para tentar produzir uma configuração política mais favorável dentro do Estado-alvo, preservando ao mesmo tempo sua máquina administrativa existente: remove-se o vértice do poder, mantém-se intacta a burocracia e, em seguida, mobilizam-se alívio de sanções, maior acesso a ativos e mercados e reconhecimento diplomático para disciplinar a nova elite governante rumo a um acordo.

    O Estado dentro do Estado

    As características específicas da economia política iraniana representam um problema fundamental para essa estratégia. Desde que assumiu o cargo em 1989, Ali Khamenei institucionalizou de forma sistemática o Gabinete do Líder Supremo. Khamenei nunca teve o carisma de seu predecessor, o aiatolá Khomeini, e sua posição clerical era mais contestada. Sua resposta foi transformar o Gabinete no verdadeiro centro de comando do regime: um denso complexo burocrático com capacidades paralelas nas esferas da administração, da política, das finanças, das comunicações, da segurança, da cultura e dos seminários religiosos. O que antes era um modesto secretariado de coordenação, com cerca de vinte funcionários, evoluiu, sob Khamenei, para um Estado dentro do Estado: um aparato paralelo composto por milhares de pessoas, dotado de vasto alcance extralegal e capaz de frequentemente sobrepor-se ou marginalizar os poderes eleitos. O objetivo dessa institucionalização era garantir que o sistema pudesse funcionar sem depender da autoridade pessoal do Líder Supremo como um único homem forte.

    Consequentemente, o Gabinete do Líder Supremo não é um órgão que se situa para além da política, como um árbitro neutro. Sua expansão institucional ocorreu em paralelo a uma reconfiguração mais profunda do bloco governante a partir do início dos anos 1990, culminando na ascensão do chamado complexo militar-bonyad. Por meio de suas nomeações em instituições não eleitas e de sua supervisão do aparato coercitivo, de fundações-chave e de setores econômicos estratégicos, o Gabinete passou a funcionar cada vez mais como a expressão institucional dos interesses dessa coalizão. Em outras palavras, o vértice do regime não é apenas uma pessoa, mas um nexo de poder que reproduz uma configuração específica de autoridade.

    O surgimento desse bloco não foi automático nem incontestado. Ele tomou forma por meio de disputas intra-elites que se seguiram à virada neoliberal do início dos anos 1990. Durante as presidências de Rafsanjani e Khatami (1989–2005), ganhou destaque no Irã uma corrente tecnocrática orientada para o Ocidente, que defendia privatização, desregulamentação e reintegração aos mercados globais como caminho para a reconstrução pós-guerra. Na prática, essas políticas criaram um universo de empresas semiprivadas: poder e riqueza crescentes passaram a fluir para entidades como afiliadas de bancos, fundos de pensão e organizações paraestatais que eram formalmente privadas, mas mantinham fortes vínculos com ministérios e elites políticas. Nesse contexto, uma nova camada de burocratas de perfil comercial e de gestores politicamente conectados ganhou maior influência. Eles promoviam uma política externa baseada na distensão com a Europa e, eventualmente, com os Estados Unidos, na esperança de garantir fluxos de capital, transferência de tecnologia e acesso aos mercados globais.

    Esse projeto, porém, mostrou-se frágil. A eleição de Mahmoud Ahmadinejad como presidente em 2005 marcou a ascensão de um modo diferente de formação neoliberal do Estado. Ahmadinejad promoveu uma ampla transferência de ativos estatais para redes ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica e grandes fundações revolucionárias, como a Fundação Mostazafan, a Execução da Ordem do Imame Khomeini (Setad) e a Fundação do Santuário do Imame Reza. Essas instituições foram transformadas em conglomerados extensos que combinavam atividades orientadas ao lucro com a retórica do desenvolvimento nacional e de missões caritativas. Embora a privatização tenha continuado em ritmo acelerado, seus beneficiários passaram a estar cada vez mais inseridos no aparato de segurança do Estado.

    No final dos anos 2000, essa reestruturação havia produzido uma nova fração dominante da classe dirigente. Politicamente representado pelo movimento principialista, o complexo militar-bonyad ancorava-se na lealdade absoluta ao Líder Supremo, em uma nova orientação estratégica voltada para China e Rússia e na resistência à integração com o capital ocidental. Essa coalizão passou a operar não apenas como um bloco econômico, mas como uma verdadeira arquitetura de governo. Suas instituições constitutivas—o Gabinete do Líder Supremo, a Guarda Revolucionária Islâmica e órgãos de segurança a ela associados, as principais fundações revolucionárias, o Judiciário e o Conselho dos Guardiões—estão protegidas de qualquer forma de responsabilização eleitoral. Suas lideranças são reproduzidas por cadeias de nomeações sob a autoridade final do Líder Supremo, enquanto o poder de supervisão do Conselho dos Guardiões abrange tanto a legislação quanto a elegibilidade de candidatos para instituições cujo comando é definido pelo voto, como a Presidência e o Parlamento. O poder dentro desse sistema repousa na fusão entre capacidade coercitiva e controle econômico, incluindo acesso privilegiado a recursos estatais, mecanismos opacos de transferência, monopólios de contratação e canais de evasão de sanções que convertem a crise em fonte de rendas políticas. Nessas circunstâncias, a pressão externa e as sanções impostas pelo Ocidente frequentemente produzem efeitos paradoxais, reforçando, em vez de enfraquecer, as estruturas que pretendem atingir.

    Exércitos paralelos

    Em vez de um único exército cujos membros poderiam eventualmente desertar, o Irã possui uma arquitetura coercitiva muito mais complexa: um sistema em camadas de forças paralelas, órgãos de inteligência sobrepostos e estruturas de comando diferenciadas, concebido para proteger o regime tanto contra ataques externos quanto contra tentativas internas de golpe. A estratégia americana de remover o vértice do poder e reorientar a burocracia, portanto, torna-se inaplicável. O Irã opera forças armadas paralelas com missões distintas. Ao lado do exército regular (artesh), a Guarda Revolucionária Islâmica não se dedica apenas à defesa territorial, mas também à salvaguarda da própria ordem política. A Guarda controla ainda as principais capacidades de dissuasão do regime—mísseis, drones e elementos centrais da defesa estratégica do espaço aéreo—situando-se no centro dos cálculos de sobrevivência do Estado. Esse arranjo de dupla estrutura militar não é um acidente histórico, mas uma tentativa deliberada de tornar o Estado à prova de golpes. O paralelismo institucional pode gerar redundâncias, mas também produz constrangimentos mútuos: nenhuma estrutura de comando isolada dispõe da autoridade necessária para converter o aparato coercitivo da lealdade à deserção.

    Nem mesmo a Guarda, contudo, é um ator unificado. Trata-se antes de uma federação de centros de poder semiautônomos, que incluem a Força Aeroespacial, as Forças Terrestres, a Marinha, a Força Quds, a Basij, além de diversas unidades de inteligência e segurança, cada uma com seu próprio mandato operacional, hierarquia interna e interesses institucionais. Essa fragmentação eleva os custos de coordenação de qualquer tentativa de deserção coletiva. Quando conflitos intra-elite ocorrem, é mais provável que assumam a forma de negociações de alto nível, barganhas, redistribuição de poderes institucionais e reordenação de prioridades internas em vez de rupturas organizacionais. A Guarda possui complexos vínculos de lealdade vertical e mecanismos de coordenação horizontal que tornam extremamente arriscado para qualquer uma de suas facções internas desafiar a estrutura de poder ou agir de maneira unilateral.

    O aparato de segurança iraniano também opera por meio de duplicação institucional e sobreposição de jurisdições. A Organização de Inteligência da Guarda atua paralelamente ao Ministério da Inteligência, enquanto outros órgãos ligados à Guarda, como a Organização de Proteção da Inteligência, a Unidade de Proteção Ansar-al-Mahdi, a Organização de Proteção da Aviação e o Comando de Defesa Cibernética, supervisionam atividades de monitoramento interno e contrainteligência. Crucialmente, a nomeação e supervisão das lideranças passam pelo Gabinete do Líder Supremo. O que à primeira vista poderia parecer uma burocracia caótica é, na verdade, uma técnica deliberada de governo. A sobreposição institucional pode produzir rivalidades políticas, mas também garante a vigilância dos vigilantes: uma estrutura que dificulta a coordenação conspiratória, eleva a probabilidade de detecção e desestimula ações coletivas fora dos canais autorizados.

    No plano operacional, os arranjos de comando e controle do Irã constituem outro obstáculo aos objetivos de Washington. Os métodos de coordenação entre as diferentes forças são concebidos para garantir continuidade mesmo quando a estrutura é alvo de ataques, por meio de centros de comando dispersos e da preservação da capacidade de retaliação. Mesmo que o adversário consiga decapitar ou degradar partes do aparato, isso de modo algum garante um colapso organizacional. O sistema é construído de tal forma que nenhum de seus componentes isoladamente tem autoridade para render o conjunto, o que o torna particularmente resiliente a choques.

    Essas características estruturais moldam os incentivos das elites em contextos de conflito. Quando as pressões externas se intensificam, os atores políticos iranianos tendem naturalmente a proteger a coalizão governante—e o sistema que garante sua autoridade, riqueza e segurança—em vez de desertar dela. Desentendimentos internos costumam se manifestar por meio de negociações sucessórias e acordos entre facções, e não pela capitulação de qualquer bloco específico diante dos Estados Unidos. O paradoxo, portanto, é que quanto mais o governo Trump tenta remodelar a estrutura de poder iraniana, mais coesa ela tende a se tornar. A sobrevivência passa a ser o princípio organizador do sistema. Seu aparato coercitivo—não uma hierarquia militar convencional, mas uma arquitetura concebida para proteger o regime e precisamente para resistir a esse tipo de ameaça—torna qualquer repetição do cenário venezuelano extremamente improvável.

    Custos de exportação

    O Irã difere da Venezuela em outro aspecto decisivo. Há muito, a doutrina de dissuasão do país se baseia na premissa de que qualquer grande confronto não ficará restrito ao território iraniano. Isso não significa que Teerã seja poderosa o suficiente para ditar o curso da escalada. Ainda assim, as capacidades estratégicas da República Islâmica lhe conferem a habilidade de impor custos amplos e prolongados em todo o Golfo e o Levante.

    Essa capacidade é o resultado cumulativo de mais de duas décadas de projeção de poder regional, que remontam a 2003. A invasão americana do Iraque rompeu o equilíbrio regional e abriu oportunidades para que o Irã ampliasse sua influência por meio de partidos aliados, milícias e redes armadas. Com o tempo, essas relações se consolidaram no que passou a ser conhecido como Eixo da Resistência: uma coalizão relativamente flexível de atores estatais e não estatais capaz de ativar múltiplas frentes e complicar o planejamento operacional de seus adversários. 

    Desde 2023, essa rede vem sofrendo pressão constante. Operações israelenses contra forças alinhadas ao Irã em diferentes partes da região, combinadas com o colapso do governo Assad na Síria, degradaram partes do Eixo e reduziram sua capacidade logística. Ainda assim, ele não foi completamente eliminado. Sua infraestrutura de parcerias, grupos armados e vínculos políticos permanece parcialmente intacta, o que significa que as perspectivas estratégicas do Irã não dependem de um único confronto decisivo. Em vez disso, Teerã mantém a capacidade de exercer pressão simultaneamente em múltiplas frentes.

    O arsenal de mísseis e drones constitui o segundo pilar dessa estratégia. A postura de dissuasão iraniana foi construída em torno de habilidades de ataque à distância (stand-off): a capacidade de atingir bases americanas em todo o Golfo e na região mais ampla, ameaçar Israel e colocar infraestruturas de aliados em risco sem precisar igualar o poder aéreo ocidental equipamento por equipamento. Na doutrina iraniana, esses sistemas não são ativos auxiliares, mas instrumentos compensatórios, concebidos para compensar a inferioridade convencional e impor custos a qualquer adversário que considere conduzir operações aéreas prolongadas. Isso tem implicações diretas para o modelo de intervenção utilizado na Venezuela, pois enfraquece a suposição de que a escalada pode ser contida de forma controlada. Uma campanha destinada a decapitar a liderança e degradar o aparato coercitivo por meio de ataques aéreos pode, ao contrário, ativar a lógica de retaliação que pretende evitar: ataques regionais calibrados, mobilização de redes parceiras e um teatro de conflito em expansão, no qual a capacidade política do coercidor de dirigir os acontecimentos se deteriora mais rapidamente do que sua capacidade de destruir alvos.

    Um terceiro instrumento é geoeconômico, centrado na capacidade histórica de Teerã de ameaçar o mercado global de energia por meio de gargalos marítimos. O Estreito de Ormuz ocupa aqui uma posição crucial. Como passagem estreita que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico, ele funciona como a principal via marítima de exportação para os produtores de petróleo do Golfo e como corredor para uma parcela significativa dos fluxos energéticos globais. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessaram o estreito em 2024, o equivalente a aproximadamente um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo. Isso faz de Ormuz o gargalo petrolífero mais importante do mundo. Mesmo uma interrupção parcial pode elevar os preços, pressionar os mercados de seguros e transporte marítimo e transmitir pressões inflacionárias para a Ásia e a Europa. Essas externalidades econômicas mais amplas conferem ao Irã um tipo de alavancagem sistêmica que a Venezuela não possuía.

    Disputa prolongada

    Embora esses instrumentos não garantam um resultado estratégico favorável ao Irã, eles lhe oferecem múltiplos caminhos para elevar o custo de uma coerção prolongada e ampliar o círculo de atores que experimentam suas consequências. A República Islâmica, em suma, não é a Venezuela. Trata-se de um sistema institucionalizado, construído para absorver choques, administrar sucessões e resistir à pressão externa. A decapitação não dissolve essa arquitetura, mas a ativa.

    Para Washington, a vantagem da estratégia de “gerenciamento de regime” é evidente: ela promete transformação política sem os custos da reconstrução estatal. No entanto, as mesmas condições que explicam seu apelo também revelam sua fragilidade. A coalizão governante do Irã, sua estrutura de segurança e sua capacidade de exportar custos garantem que os Estados Unidos terão dificuldade tanto para conter a escalada quanto para determinar seus desdobramentos políticos. A tentativa de Washington de produzir uma transição controlada pode, assim, transformar-se em algo completamente diferente: uma disputa prolongada que gera instabilidade crescente em vez de rápida submissão. A escolha de Mojtaba Khamenei como novo Líder Supremo ilustra esse ponto: o sistema ainda não foi rompido. Ao contrário, ele se reproduziu.


  6. A aposta do Hezbollah

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    Quando Estados Unidos e Israel lançaram seu ataque contra o Irã, muitos observadores na região aguardavam para ver como o Hezbollah reagiria. Após o confronto devastador com Israel em 2024, as capacidades do partido libanês haviam sido profundamente reduzidas e grande parte de sua antiga liderança estava morta. O movimento havia assinado um cessar-fogo fortemente desigual, mediado pelos Estados Unidos, no qual se comprometia a recuar para o norte do rio Litani e abandonar suas bases no sul, enquanto Israel continuava a ocupar partes do Líbano e a realizar ataques constantes. Quando as bombas começaram a cair sobre Teerã, alguns duvidaram que o Hezbollah fosse capaz—ou estivesse disposto—de voltar a enfrentar o inimigo.

    Ao longo do último ano, porém, o Hezbollah vinha se rearmando e reorganizando suas estruturas de comando, partindo do pressuposto de que um confronto desse tipo era praticamente inevitável e que precisava se reposicionar no novo cenário do Oriente Médio. Em 2 de março, dois dias após o início da guerra, o grupo abriu fogo contra Israel com uma barragem de mísseis. Israel respondeu emitindo ordens de evacuação para todo o sul do Líbano, bem como para os subúrbios ao sul de Beirute. Um número sem precedentes de 600 mil moradores deixou a região às pressas, enquanto outros permaneceram presos na zona marcada para destruição. Os bombardeios israelenses que se seguiram devastaram a infraestrutura civil, matando quase 500 pessoas e ferindo mais de 1.300. Neste momento, em meio a sinais contraditórios de Washington, não há como prever quando a guerra terminará. Mas, seja qual for o desfecho temporal do conflito, o retorno das hostilidades no Líbano pode ter implicações duradouras tanto para o Hezbollah quanto para Israel. O que cada lado espera ganhar?

    Há razões para supor que a entrada do Hezbollah no conflito tenha sido preventiva. Nos dias anteriores, Israel havia mobilizado cerca de 100 mil reservistas, com forte concentração na fronteira norte com o Líbano. Segundo um telegrama da embaixada dos Estados Unidos, vazado e datado da véspera da guerra, Israel duvidava que o governo libanês cumprisse sua promessa de desarmar o Hezbollah—o que sugeriria, talvez, que teria de tomar o assunto em suas próprias mãos. Uma reportagem do Canal 12 de Israel afirmou ainda que um ataque contra o Líbano já havia sido aprovado antes mesmo do Hezbollah agir.

    Ainda assim, planejasse ou não expandir a guerra para o Líbano, o cálculo de Israel parece claro: enfraquecer o Irã para eliminar seus rivais regionais—começando pelo Hezbollah e, provavelmente, avançando depois contra o Ansarullah, no Iêmen—e, assim, consolidar sua posição como hegemon incontestável do Oriente Médio. Ao fazê-lo, Israel também poderia expandir seu controle sobre áreas do Líbano, da Síria e de Gaza, compensando sua relativa falta de profundidade estratégica.1Autoridades israelenses há muito falam de um “Grande Israel” como um direito bíblico e uma aspiração sionista. Deixando de lado essa mistificação teológica, uma das principais vulnerabilidades de Israel é sua falta de profundidade estratégica. Expandir seu território sempre que possível, ao mesmo tempo em que desestabiliza e controla a região ao redor, são duas formas pelas quais busca mitigar esse problema. O Hezbollah, por sua vez, parece enxergar na resposta contundente do Irã à agressão—lutando tenazmente para preservar sua soberania—a possibilidade, ainda que remota, de restabelecer sua posição no sul do Líbano e expulsar as forças israelenses. Se o cessar-fogo de 2024 ameaçava transformar o Hezbollah em uma força marginal e domesticada, o grupo pode agora ver uma oportunidade de reverter essa situação.

    Além disso, o Hezbollah pode estar explorando uma oportunidade para pressionar a frente norte de Israel, num momento em que os mísseis balísticos iranianos já estão sobrecarregando os sistemas de defesa aérea na região e grande parte da força aérea e dos serviços de inteligência israelenses concentra sua atenção no Irã. Ataques de mísseis do Hezbollah teriam causado danos em áreas centrais de Israel e em assentamentos no norte do país. O partido afirmou ter destruído um centro de comunicações por satélite, e seus ataques coordenados com o Irã sugerem uma estreita cooperação entre seu braço militar e a Guarda Revolucionária Islâmica. A ofensiva também indica uma mudança estratégica: o Hezbollah parece ter retomado as táticas de guerrilha que empregava nos anos 1990: autoridades militares israelenses relatam que o grupo tem mobilizado pequenas unidades que atacam forças israelenses e, em seguida, desaparecem rapidamente.

    O governo libanês de Nawaf Salam, levado ao poder sob pressão americana para desarmar o Hezbollah, respondeu aos confrontos proibindo formalmente as atividades militares do grupo. Ainda, condenou os ataques do Irã contra países do Golfo e pediu negociações com Israel, afirmando estar disposto a discutir “qualquer agenda”, “em qualquer formato” e “em qualquer fórum.” Naturalmente, os apelos de Salam foram ignorados, e o governo Trump teria se recusado até mesmo a atender suas ligações. Ainda assim, embora o Hezbollah tenha até agora frustrado as tentativas do governo de contê-lo, precisa lidar com a opinião pública libanesa, que se mostra firmemente contrária à decisão de voltar à guerra. Muitos acreditam que o Hezbollah lançou o país, já extremamente frágil, em mais um conflito desastroso, seja a pedido da Guarda Revolucionária ou na tentativa de recuperar o controle sobre territórios ocupados no sul, algo que alguns de seus adversários políticos parecem cada vez mais inclinados a abandonar, caso isso permita evitar uma nova escalada.

    Há também o risco de que tensões internas alimentem conflitos sectários no Líbano. Com mais de meio milhão de xiitas deslocados pelo país, relatos de agitação sectária tornam-se cada vez mais frequentes. As divisões geográficas do país se aprofundaram, à medida que os habitantes do sul, submetidos a bombardeios israelenses constantes, sentem que o governo em Beirute nada fez para protegê-los. Muitos apoiadores do Hezbollah, que ainda não se recuperaram da rodada anterior de combates—na qual mais de 4 mil pessoas foram mortas—, não são favoráveis a esse novo conflito. Ainda assim, como o partido continua sendo a única força capaz de dissuadir Israel de anexar grande parte de seu território, mantém uma legitimidade duradoura, apesar das críticas que possa enfrentar dentro de sua própria base social.

    Ao contrário do que afirmam opositores do Hezbollah, tanto no Líbano quanto no Ocidente, o partido não se vê como uma extensão da Guarda Revolucionária Islâmica nem como um simples instrumento da política externa iraniana. Trata-se de um ator regional com sua própria visão estratégica e orientação política. Isso, porém, não significa que o Hezbollah deixe de ser um elemento essencial da estratégia de defesa avançada do Irã. Uma vez que a relação é mediada pela lógica dos interesses de segurança nacional de Teerã, a aliança entre o Irã e Hezbollah é inevitavelmente assimétrica. Esse continua sendo o caso independentemente das relações pessoais entre suas lideranças ou de suas afinidades ideológicas. Consciente desse desequilíbrio de poder, o Hezbollah precisa ponderar cuidadosamente seus próprios interesses diante dos interesses do Irã. Suas ações desde 2 de março refletem essa relação complexa. Devem ser entendidas não apenas como uma tentativa de defender o Irã, mas também como uma aposta de grande risco, possivelmente existencial: a tentativa de recuperar o legado do partido após a derrota de 2024, bem como os territórios ocupados por Israel.

    Além disso, o Hezbollah procura se reposicionar na ordem geopolítica emergente da região, cujos contornos ainda permanecem incertos. Ao apostar alto na capacidade do Irã de dissuadir os Estados Unidos e Israel, o Hezbollah busca reafirmar seu valor como parceiro de segurança caso a República Islâmica consiga preservar sua soberania ao fim da guerra. Se essa estratégia fracassar—seja porque o governo iraniano venha a cair, seja porque aceite um cessar-fogo desfavorável, que parece ser agora o desfecho desejado por Trump—, o Hezbollah poderá se ver novamente isolado. Nesse cenário, talvez tenha de enfrentar sozinho o exército israelense, caso Israel deixe de focar no Irã e volte sua ofensiva apenas contra o Líbano. É impossível calcular quão desastroso um desfecho como esse poderia ser.


  7. Crise de plausibilidade

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    O Chile tomou um rumo sombrio nas eleições de 2025. José Antonio Kast, o candidato de extrema direita à presidência, derrotou sua rival comunista Jeannette Jara por uma margem significativa ao conquistar 58% dos votos no segundo turno. Sua aliança eleitoral, Cambio Por Chile, também garantiu um aumento da representação na Câmara dos Deputados. Num pleito marcado por uma das maiores taxas de participação das últimas décadas, graças a um novo sistema de voto obrigatório, mais de 7 milhões de pessoas optaram pelo confiante programa de Kast  a favor da “lei e da ordem”, que defende o combate ao crime, aos sindicatos e à migração, o retorno aos princípios do livre mercado e a revogação de políticas sociais progressistas. Sua posse encerrou um breve período de abertura política para a esquerda do país, marcado pela ascensão de Gabriel Boric ao poder em 2022 após uma onda de protestos generalizados que desafiaram a ordem constitucional chilena. Com o novo governo, a esperança de que as estruturas neoliberais herdadas da ditadura de Pinochet pudessem ser derrubadas num futuro próximo esmoreceu. 

    Essa reviravolta tem sido explicada de diversas maneiras. Alguns analistas viram o resultado das eleições como uma reafirmação do conservadorismo inato do povo chileno, outros o consideraram a expressão de um sentimento antigoverno, um sintoma da crescente preocupação com a criminalidade ou um reflexo de tendências regionais mais amplas. No entanto, muitas destas interpretações ignoram um aspecto distintivo na conjuntura chilena. Não houve uma súbita conversão em massa à direita. Na verdade, o modelo econômico existente no país, fundado após a ditadura, foi assolado por uma “crise de plausibilidade”. 

    Esse modelo baseava-se numa promessa não apenas de crescimento, mas também de integração nacional, e assumia que a estabilidade macroeconômica se traduziria em melhores condições de vida para a maioria da população. Por meio dele, o Chile pôde combinar expansão econômica acelerada com redução significativa da pobreza e aumento dos salários reais. Tendo sido suficientemente eficaz e duradouro, ele formou uma espécie de consenso sobre o significado do progresso.

    Ainda assim, mesmo em sua fase mais bem-sucedida, o pacto de integração do pós-1990 carregava uma tensão interna. A promessa de mobilidade social baseava-se em uma combinação de gasto social focalizado, disciplina macroeconômica e ampliação do acesso a serviços organizados de forma privada ou semiprivada. Essa integração baseada no acesso tornou-se um substituto para direitos, financiada pelos orçamentos familiares, pelos mercados de crédito e por um sistema misto de provisão público-privada. O conflito distributivo foi, assim, empurrado para um horizonte de longo prazo. Os governos podem pedir paciência, porque a recompensa é sempre apresentada como algo que virá mais adiante.

    Embora essa noção pudesse ser convincente nos anos 1990, desde a virada do milênio ela passou a soar cada vez mais improvável. O sistema educacional não cumpriu suas promessas como ferramenta de ascensão social. Processos de reformulação da Constituição de 1991 conseguiram fazer com que reformas graduais fossem temporariamente vistas como passos em direção a um acordo mais amplo, mas esse horizonte se fechou com as derrotas nos plebiscitos de 2022 e 2023, e o reformismo lento começou a parecer mais uma forma de deriva do que de progresso.

    A mudança decisiva não foi a perda de importância da redistribuição, mas o fato de que a política deixou de ser vista como uma via de construção do futuro. Nesse contexto, a experiência de governo de Gabriel Boric pode ser lida como um problema de timing em um contexto de fortes restrições econômicas e políticas. Em meio à estagnação, ao endividamento e à fadiga institucional, uma política de direita baseada na “segurança” conseguiu ganhar terreno. Para compreender como esse processo se desenrolou e como a esquerda pode se reorientar sob o governo de Kast, é preciso voltar à trajetória do Chile pós-Pinochet.

    O acordo

    O Chile saiu da ditadura, em 1990, com uma economia significativamente liberalizada e muito influenciada pela Escola de Chicago. A transição democrática do país combinou disciplina macroeconômica contínua com a ampliação dos gastos sociais. Isso deu origem a um acordo de desenvolvimento peculiar. Em vez do retorno à substituição de importações ou a uma estratégia industrial liderada pelo Estado, as elites optaram pela preservação de partes essenciais da ordem econômica de Pinochet, acompanhadas de uma maior inclusão social por meio de programas sociais e políticas focalizadas de redistribuição, como forma de garantir “estabilidade”. 

    Com a melhora nos indicadores econômicos, esse acordo passou a ser amplamente aceito pela população. Entre 1990 e 1998, o crescimento real do PIB do Chile atingiu, em média, 7,3% ao ano, enquanto o PIB real per capita teve um aumento anual médio de 5,6% e os salários reais subiram cerca de 4% a cada ano ao longo da década. A pobreza diminuiu drasticamente, de 38,6% para 21,7%; e a pobreza extrema caiu de 12,9% para 5,6%. Embora esses ganhos não tenham eliminado a desigualdade nem criado uma economia de altos salários para a maioria dos chilenos, eles fizeram com que a meta de integração parecesse alcançável. Dava-se a impressão de que o crescimento, a estabilidade e a redistribuição gradual poderiam ocorrer simultaneamente. Isso teve implicações políticas significativas, pois legitimou o exercício do poder por parte das instituições do país e fez com que as famílias considerassem que suas dificuldades eram um sintoma temporário, e não o efeito de condições estruturais. 

    O acordo pós-1990, no entanto, deslocou a promessa de mobilidade para um canal institucional específico. O desencontro entre aumento da produtividade e valorização salarial levou as famílias a atribuírem a possibilidade de ascensão social não ao mercado de trabalho, mas à educação formal. Para que a perspectiva de progresso se concretizasse, era preciso conquistar credenciais. O período registrou uma rápida massificação do ensino superior. Análises oficiais mostram que o percentual de  pessoas de 18 a 24 anos matriculadas aumentou de 13% em 1990 para 27,5% em 2006 e, em seguida, para 30,8% em 2009. 

    Esse aumento teve uma dupla função. Simbolicamente, representou inclusão, dignidade e a promessa de uma identidade profissional para a nova geração de chilenos. Institucionalmente, funcionou como um mecanismo substitutivo de integração em uma sociedade onde os direitos universais à saúde, aposentadoria, moradia e assistência ainda eram limitados ou segmentados. Havia uma sensação crescente de que o esforço educacional poderia compensar as desigualdades estruturais. O acordo político passou, assim, a se sustentar sobre os retornos garantidos pela educação. 

    Esse era um ponto de grande vulnerabilidade. Quando a mobilidade social depende de credenciais deste tipo, elas naturalmente se tornam alvo de intenso escrutínio. Se a qualidade da oferta for desigual, se a absorção pelo mercado de trabalho for segmentada ou se o preço da formação implicar dívidas excessivas, a situação pode se tornar politicamente explosiva. Em outras palavras, a educação só consegue exercer um papel estabilizador se seus custos não forem vistos como punitivos.

    O regime chileno de crédito foi a faísca que incendiou esse barril de pólvora. Criado em 2005, o Crédito con Aval del Estado (CAE) institucionalizou a via do endividamento como um dos principais pilares da expansão do ensino superior. Ele integrou a expansão universitária aos circuitos financeiros e redefiniu o significado social do acesso, que deixou de ser apenas uma questão de admissão e pagamento de mensalidades para se tornar uma obrigação de longo prazo. Estabeleceu-se, assim, um vínculo direto entre condições macroeconômicas, o orçamento das famílias e a legitimidade política. Ao final de 2021, uma caracterização oficial da população de devedores do CAE indicava que mais de um milhão de estudantes haviam aderido ao sistema de crédito e que a inadimplência vinha crescendo de forma persistente desde 2015, atingindo 48% no fim de 2021. O mesmo relatório mostra que a inadimplência era particularmente elevada entre aqueles que não concluíram seus estudos, chegando a cerca de 77%.

    A abertura do ensino superior chileno, portanto, não foi apenas uma história de ampliação de oportunidades, mas uma complexa trama de provisão mercantilizada e de arranjos financeiros que transferiam o risco do exercício do direito à educação para as famílias. Isso criou as condições para uma política de decepção: expectativas não atendidas deram origem a ressentimento popular. Embora tenha sido possível evitá-lo enquanto a economia crescia, esse ressentimento veio à tona assim que o ciclo expansionista desacelerou e o sonho de integração começou a se desfazer. 

    A revolta dos estudantes

    Essa desaceleração produziu uma série de convulsões políticas, em 2006, 2011 e 2019, cada uma delas expressando a mesma tensão subjacente: o acesso à educação se expandia mais rapidamente do que a capacidade de garantir qualidade e assegurar os resultados sociais desejados. Em uma sociedade ainda organizada em torno do crédito e da oferta privatizada de serviços, o sistema se mostrou incapaz de cumprir suas promessas. Conforme as mensalidades e a dívida estudantil passaram a mediar a experiência cotidiana da mobilidade social, o conflito distributivo se concentrou no setor educacional.

    Em 2006, estudantes secundaristas lançaram a chamada “Revolução dos Pinguins”. O que começou como uma série de demandas concretas sobre questões como o custo do transporte e as taxas dos exames admissionais logo se transformou em uma crítica abrangente à desigualdade educacional. O movimento colocou o debate sobre a educação de volta na agenda nacional e expôs as disparidades do sistema. Em 2011, o foco mudou para o ensino superior. Nos dois anos seguintes, federações estudantis universitárias e outros atores sociais se envolveram em mobilizações que tinham como alvo direto os interesses de mercado na educação, como a oferta de ensino com fins lucrativos e o financiamento da dívida. O movimento conseguiu vincular o orçamento das famílias a questões mais amplas de legitimidade política. 

    Essas duas ondas reconfiguraram as bases da política da década seguinte, legitimando um vocabulário de defesa dos direitos sociais e aumentando as expectativas sobre a capacidade da  política institucional de proporcionar melhorias materiais. Essa nova perspectiva assertiva alimentou a onda de manifestações sociais de 2019, que foi inicialmente desencadeada por um aumento nas tarifas do transporte público e logo se transformou em uma luta contra a desigualdade, a dívida e o alto custo de vida. Enquanto manifestantes reivindicavam reformas na educação, na saúde e na previdência e exigiam que esses setores servissem ao público e não aos especuladores, o Estado se afundava em crise. 

    A única maneira de apaziguar a situação foi abrir um processo constituinte, negociado com o Congresso. O momento político decisivo foi o Acordo pela Paz Social e uma Nova Constituição, de 15 de novembro de 2019, no qual os partidos se comprometeram com uma saída institucional por meio de um plebiscito de duas perguntas. Os eleitores seriam questionados se desejavam uma nova constituição e qual órgão deveria redigir o texto. Em dezembro de 2019, esse roteiro foi formalizado por meio de uma emenda constitucional, a Lei 21.200, que estabeleceu as regras de funcionamento do órgão constituinte e definiu a sequência das etapas. O plebiscito, que teve de ser adiado devido à pandemia, foi finalmente realizado em 25 de outubro de 2020. A participação foi elevada para os padrões da época, quando o voto era voluntário, atingindo 50,9%. Naquele dia, 78,27% dos votos foram favoráveis à nova constituição, e o mecanismo da Convenção Constitucional prevaleceu de forma decisiva, com 78,99%.

    Do ponto de vista político, o plebiscito instaurou um mandato de substituição respaldado por uma legitimidade eleitoral esmagadora. Não se tratava simplesmente de alterar um texto. Abriu-se uma via capaz de reordenar o pacto social sob condições democráticas num horizonte explicitamente igualitário. Essa expectativa foi reforçada pelo próprio desenho institucional do órgão constituinte. Em 15 e 16 de maio de 2021, foram escolhidos 155 representantes para a convenção, numa eleição em que a  paridade de gênero foi respeitada. Listas independentes tiveram uma participação excepcionalmente significativa e dezessete cadeiras foram reservadas para os povos indígenas. O mecanismo transmitia uma mensagem dupla. Por um lado, visava ampliar a base sociopolítica do processo constituinte. Por outro, sinalizava que o novo pacto não seria um arranjo entre as elites, mas o resultado de um acordo institucional  capaz de absorver as pressões e demandas da base.

    No dia 4 de julho de 2021, a Convenção foi instaurada e deu-se início a uma intensa etapa de organização e elaboração. Uma diretoria foi escolhida, comissões e métodos de trabalho foram definidos, regras processuais foram aprovadas e um calendário deliberativo foi estabelecido. Desde o início, sua arquitetura combinou aspirações participativas com rígidas exigências processuais.1Entre os elementos mais notáveis estava a Lei 21.200, que estabeleceu que as normas constitucionais e as regras de votação deveriam ser aprovadas por um quórum de dois terços dos membros em exercício. A Convenção também não poderia alterar esses quóruns nem os procedimentos para a adoção de acordos. Esse limiar elevado foi concebido como uma garantia de amplitude transversal entre forças políticas. Ao mesmo tempo, introduziu uma tensão persistente entre o impulso transformador e a capacidade prática de fechar acordos. Paralelamente, o processo buscou sustentar sua legitimidade por meio de mecanismos de participação destinados a tornar a contribuição cidadã consequente. As regras de participação pública, aprovadas pelo Plenário em outubro de 2021, criaram uma estrutura interna composta por uma comissão política e uma secretaria técnica. Também foram implementados uma plataforma digital e um registro público para canalizar propostas. Um dos instrumentos mais visíveis foi a Iniciativa Popular de Norma. Qualquer pessoa ou grupo podia propor disposições de nível constitucional. Se uma proposta alcançasse 15 mil assinaturas provenientes de pelo menos quatro regiões, passava a ter um status comparável ao de uma proposta apresentada por convencionais e precisava ser discutida e votada. Também foram previstas reuniões autoconvocadas, espaços deliberativos organizados pela própria sociedade. A ideia de um plebiscito dirimente também foi incluída, como forma de destravar normas que não alcançassem dois terços, mas que obtivessem três quintos em uma segunda votação, embora sua viabilidade dependesse de ajustes institucionais adicionais. A promessa era combinar representação eleitoral com participação efetiva, contribuições rastreáveis e alcance territorial. Dessa forma, o texto final poderia ser apresentado como a síntese de um processo ampliado de deliberação pública.

    A política chilena se reorganizou em torno do movimento constituinte e abriu caminho para uma nova geração de lideranças. Gabriel Boric chegou à La Moneda após as eleições presidenciais de 2021, que tiveram a maior participação da história do país. Sua aposta era canalizar o descontentamento através das instituições, reconectar a democracia com a proteção social e fornecer um direcionamento político para o prometido ciclo de transformações. Para muitos dos membros da coalizão e do eleitorado de Boric, o governo e a Convenção eram dois lados da mesma moeda. A esperança era de que os protestos poderiam se converter numa arquitetura institucional capaz de proporcionar mudanças materiais sustentáveis.

    Boric sob as amarras da estabilização

    Boric enfrentou dificuldades desde o começo. Seu governo tomou posse enquanto o ciclo constitucional ainda estava aberto, com a esperança de que esse processo poderia fornecer uma fonte renovada de legitimidade. Essa expectativa se dissipou rapidamente. No dia 4 de setembro de 2022, a minuta da Convenção Constitucional foi rejeitada por ampla margem no plebiscito de saída, no qual o voto foi obrigatório.

    A derrota de 2022 removeu o veículo institucional que poderia ter ampliado o espaço para reformas. A queda se aprofundou ainda mais quando a segunda tentativa também fracassou. Um novo processo, mais rigidamente controlado, foi lançado com bases pré-definidas, uma Comissão de Especialistas e uma revisão técnica de admissibilidade e culminou em outro plebiscito. Em 17 de dezembro de 2023, o segundo texto proposto foi igualmente rejeitado. O voto contrário foi escolhido por 55,76% do eleitorado, o favorável, por 44,24%. Duas derrotas consecutivas consolidaram um efeito de fadiga e reforçaram a lição de que alternativas percebidas como muito distantes do eleitor mediano provavelmente seriam punidas. O resultado prático foi uma lógica mais forte de gradualismo, cautela e governabilidade. O espaço para uma redistribuição ambiciosa se estreitou ainda mais, não apenas por causa das restrições macroeconômicas, mas porque o mandato simbólico para uma rápida refundação do pacto social havia sido negado duas vezes nas urnas.

    Esse fechamento político se desenrolou sobre restrições econômicas já existentes. O ciclo da pandemia elevou, aos olhos das famílias, a percepção da capacidade do Estado, ao mesmo tempo em que criou condições macroeconômicas que exigiam estabilização. No próprio planejamento fiscal do governo, a estratégia foi organizada em torno da convergência para metas estruturais mais rigorosas, com o objetivo de reduzir um déficit estrutural que havia se ampliado durante o período de emergência. Em 2022, a consolidação fiscal foi dramática. As contas e relatórios orçamentários oficiais demonstram que o ano se encerrou com um superávit primário de cerca de 1,1% do PIB e uma redução real nos gastos públicos de aproximadamente 23,1% em relação a 2021, uma contração excepcional para os padrões das últimas décadas.

    A redução da incerteza e a queda das expectativas de inflação são valiosas, mas não se traduzem em melhorias visíveis na vida cotidiana na velocidade que coalizões reformistas precisam. As restrições também não desapareceram após o ajuste inicial. Em 2024, relatórios fiscais oficiais registraram um déficit primário de cerca de 2,9% do PIB e um déficit estrutural de aproximadamente 3,2% do PIB, confirmando que a tensão fiscal havia sido reconfigurada e não resolvida.

    A inflação introduziu um segundo fator, ainda mais corrosivo. A inflação anual encerrou 2022 em 12,8%, atingindo o pico de 14,1% em agosto daquele ano. A política monetária tornou-se contracionista. A taxa básica de juros no Chile alcançou 11,25% antes de começar a recuar gradualmente, chegando a 5% em dezembro de 2024. A desinflação protege os salários reais no médio prazo, mas o faz por meio de instrumentos que desaceleram o crédito e o investimento, com efeitos desiguais sobre o emprego e a precariedade. Isso é particularmente danoso quando os domicílios carregam níveis elevados de endividamento de consumo e educacional e comparam a austeridade atual com a memória das transferências massivas durante a pandemia.

    A política social passou, assim, a operar dentro de um paradoxo. Esperava-se que o Estado atuasse em grande escala justamente porque havia feito isso recentemente. A melhor ilustração é o Ingreso Familiar de Emergencia (IFE). O IFE foi criado como uma transferência extraordinária durante a pandemia e expandido ao longo do tempo, culminando na fase do IFE Universal. Em julho de 2021, comunicações oficiais do governo informaram que o IFE Universal havia alcançado 15.805.563 pessoas e 7.676.627 domicílios. O relatório oficial de julho de 2021 também indicava que 95,8% dos inscritos no Registro Social de Hogares recebiam o benefício. Do ponto de vista fiscal, um balanço oficial da Dirección de Presupuestos registrou que o IFE custou US$ 24,6 bilhões entre 2020 e 2021.

    O retorno a instrumentos focalizados representou, assim, um colapso de expectativas. O governo de Gabriel Boric implementou, de fato, medidas importantes. O Copago Cero foi ativado em setembro de 2022 para usuários do Fondo Nacional de Salud na rede pública, eliminando copagamentos na atenção institucional. Relatórios oficiais do Ministério da Saúde indicam que, entre setembro de 2022 e maio de 2024, 1.510.227 pessoas foram beneficiadas e que a economia total chegou a CLP 202 bilhões. Em setembro de 2025, o governo informou que 1.919.190 pessoas haviam sido beneficiadas diretamente desde a implementação. A política salarial também mudou, com o salário mínimo mensal alcançando CLP 539 mil para trabalhadores com idade entre 18 e 65 anos.

    Essas políticas reduziram gastos diretos com saúde, apoiaram salários formais e protegeram grupos específicos. Mas, no contexto de inflação recente, mercado de trabalho frágil, endividamento disseminado e um cenário político marcado pelo fechamento do processo constitucional, muitas famílias passaram a experimentar essas medidas mais como contenção do que como uma promessa crível de melhora sustentada. Em outras palavras, sob as restrições da estabilização macroeconômica—e nas condições políticas criadas por duas derrotas constitucionais—, essas políticas não conseguiram reconstruir, com rapidez suficiente, a integração social das maiorias.

    O fracasso da reforma tributária do governo em março de 2023 dificultou ainda mais a capacidade de financiar uma agenda universal mais ampla. Sem novas receitas permanentes, a ambição redistributiva ficou confinada a corredores estreitos. Embora a agenda de reforma previdenciária tenha sido aprovada em janeiro de 2025, seus efeitos não foram imediatamente perceptíveis. Uma política que se implementa gradualmente ao longo de anos pode ser fiscalmente responsável e socialmente significativa, mas ainda assim fracassar em oferecer alívio imediato no período que importa eleitoralmente.

    Por que Kast venceu

    A vitória de José Antonio Kast em dezembro de 2025 marcou o desfecho de uma longa sequência histórica na qual a promessa de integração deixou de convencer, enquanto a experiência cotidiana de insegurança e perda de controle se impôs como o fato político mais visível. No segundo turno, Kast obteve 58,16% dos votos, contra 41,84% de Jeannette Jara, com 11.367.113 votos registrados. A magnitude da margem é importante, mas o ponto mais profundo é o que essa margem condensou. Kast não venceu porque o Chile de repente se tornou ideologicamente homogêneo. Ele venceu porque uma grande parte do eleitorado passou a tratar ordem, disciplina e capacidade de fazer cumprir as regras como as únicas promessas que ainda pareciam executáveis em uma economia constrangida e em um cenário institucional marcado pela fadiga.

    Kast não é um recém-chegado que apareceu repentinamente na política do país. Trata-se de uma figura de longa trajetória na direita chilena que profissionalizou sua candidatura por meio da repetição eleitoral, da construção partidária e da disciplina programática. Formado em direito, iniciou sua carreira política no nível local e depois atuou por vários mandatos como deputado. Candidatou-se pela primeira vez à presidência em 2017, como um outsider em relação às coalizões tradicionais da direita; voltou a disputar em 2021 e, novamente, em 2025. Essa trajetória construiu uma marca política capaz de sobreviver a derrotas, absorver ressentimentos e normalizar um vocabulário mais duro da direita no interior da competição democrática. Em 2021, Kast já foi capaz de liderar o primeiro turno e forçar um segundo turno, no qual obteve 44,13% dos votos. Mesmo na derrota, esse resultado o estabeleceu como algo mais do que um candidato de protesto. Sinalizou que uma oferta de direita linha dura poderia se tornar um polo estável de representação, especialmente quando a centro-direita parecia fragmentada e quando a esquerda governante era empurrada para uma política de contenção. 

    O veículo organizacional dessa proposta é o Partido Republicano de Chile. Kast o fundou e passou a liderá-lo após romper com a antiga direita conservadora, construindo um partido que se apresenta como mais intransigente em matéria de ordem pública, controle migratório e conservadorismo cultural do que a direita tradicional surgida no período da transição democrática. Historicamente, a direita tradicional chilena combinou simpatia pelo empresariado e ortodoxia macroeconômica com uma disposição pragmática para governar dentro do acordo estabelecido após 1990. O partido de Kast foi concebido para explorar a percepção de que esse pragmatismo havia se tornado indistinguível de inércia gerencial. Sua vantagem comparativa foi prometer clareza, hierarquia e rapidez, tratando a linguagem dos direitos não como horizonte político, mas como fonte de desordem e indisciplina fiscal.

    Kast também deve ser interpretado como produto de uma infraestrutura transnacional da direita, que hoje funciona como uma espécie de atalho geopolítico dentro da competição doméstica. Muito antes do segundo turno de 2025, ele já havia se inserido em redes que conectam movimentos conservadores próximos à Conservative Political Action Conference (CPAC) a atores europeus e latino-americanos. Sua participação na CPAC Brasil, ao lado de Javier Milei e Jair Bolsonaro, e seu encontro com Milei após a vitória tornaram esse alinhamento publicamente visível. Sua posterior turnê europeia como presidente eleito encenou uma agenda compartilhada com Santiago Abascal em Bruxelas, um encontro com Viktor Orbán em Budapeste e uma parada em Roma com Giorgia Meloni, todos articulados em torno de um repertório familiar de segurança, migração e ordem.

    A vitória de Kast apoiou-se em vários mecanismos. O primeiro foi o esgotamento da promessa de mobilidade social. Quando a expansão educacional se torna um substituto para direitos universais, pode até estabilizar uma sociedade altamente desigual por algum tempo, mas apenas enquanto seus retornos permanecem críveis. Se as melhorias são lentas, parciais ou administrativamente complexas, muitos eleitores interpretam a demora não como a paciência exigida pela democracia, mas como evidência de que o sistema não é capaz de entregar resultados.

    O segundo mecanismo foi a fadiga institucional após o ciclo constitucional. A abertura constitucional iniciada após a revolta de 2019 criou um período em que o gradualismo podia ser narrado como movimento em direção a um destino coletivo. O fracasso desse processo corroeu a crença de que a política é capaz de traduzir conflitos em acordos vinculantes. A consequência relevante é psicológica e estratégica: mais do que simplesmente uma rejeição à esquerda, os eleitores tornam-se mais dispostos a trocar horizontes ambiciosos por instrumentos imediatos de controle, premiando aquilo que parece executável. O discurso de Kast é construído precisamente para esse ambiente.

    Um terceiro mecanismo foi a reorganização do medo cotidiano em torno da segurança e da migração. Não é necessário que um país apresente níveis catastróficos de homicídios para que a insegurança se torne um sentimento dominante. Os números oficiais de homicídios no Chile ainda são baixos em comparação regional, mas o debate público tem sido moldado pela percepção de uma mudança qualitativa—dinâmicas de crime organizado e controle territorial em bairros específicos—que amplifica o medo mesmo quando as médias nacionais evoluem lentamente. Nesse contexto, uma política de lei e ordem consegue converter ansiedades dispersas em uma demanda unificada. A migração acabou sendo fundida a essa demanda.2A autoridade estatal de migração do Chile registrou que as entradas irregulares atingiram um pico em 2021, com 56.585 casos, e depois diminuíram nos anos seguintes, incluindo 44.235 em 2023, com novas reduções registradas em 2024. Na narrativa de Kast, o problema é a perda de controle; a solução é a reafirmação do controle.

    Um quarto elemento é a forma como a experiência política se transforma em um ativo em contextos de frustração. As repetidas candidaturas presidenciais de Kast, combinadas com vitórias eleitorais intermediárias de seu partido, sinalizaram impulso político e normalizaram sua presença. Na eleição de 2023 para o Conselho Constitucional, o Partido Republicano de Chile obteve 35,41% dos votos e vinte e três cadeiras, tornando-se a maior lista individual naquela disputa. Esse resultado funcionou como prova de que o partido não era uma reação momentânea, mas uma organização duradoura, capaz de vencer eleições.

    Em conjunto, esses mecanismos ajudam a explicar por que a vitória de Kast foi, ao mesmo tempo, uma guinada à direita e um voto de punição. Ela expressou uma demanda por ordem que emergiu da estagnação, do endividamento e da fadiga institucional, ao mesmo tempo em que premiou um ator que passou quase uma década construindo um veículo organizacional coerente para canalizar essa demanda. Em uma economia aberta onde as restrições de estabilização são reais, em um ambiente pós-constitucional em que os horizontes coletivos são frágeis e em um cenário social no qual medo e controle dominam a percepção cotidiana, a proposta vencedora tende a ser aquela que converte frustrações difusas em uma promessa única e executável. Foi isso que Kast ofereceu, e é por isso que sua vitória deve ser entendida como a culminação de um ciclo mais longo, e não como uma conversão repentina.

    Estratégia socialista em uma economia aberta

    Como seria um programa econômico socialista crível em uma pequena economia aberta como a chilena, onde a taxa de câmbio, o equilíbrio externo e as expectativas financeiras restringem a margem para redistribuição, e onde a reprodução social vem sendo organizada há décadas por meio de serviços privatizados, direitos segmentados e crédito barato? Uma resposta viável precisa ser, ao mesmo tempo, macroeconomicamente compatível e materialmente inteligível.

    Daí decorrem duas lições políticas. A primeira é que a estabilidade precisa ser reivindicada como parte de uma estratégia de classe, em vez de ser cedida à tecnocracia conservadora. Inflação e desvalorização cambial atingem primeiro os grupos de baixa e média renda, porque elevam o custo dos bens essenciais e corroem os salários mais rapidamente do que os contratos conseguem se ajustar. O pico inflacionário de 14,1% em 2022 e o pico da taxa básica de juros em 11,25% não são apenas fatos macroeconômicos. São eventos distributivos com consequências políticas. Uma estratégia socialista que trate a estabilidade macroeconômica apenas como uma restrição externa será percebida como resignada. Uma estratégia que ignore a estabilidade será punida pelos canais da inflação e da desvalorização, que rapidamente destroem a legitimidade popular.

    A segunda lição é que, para a esquerda chilena, o modelo de “integração” baseado no acesso tem um limite estrutural que se torna fatal em contextos de volatilidade e crise. Quando a inclusão é mediada pelos orçamentos das famílias , pelas condições de crédito e pelos preços de mercado, qualquer choque macroeconômico se traduz imediatamente em tensão no cotidiano, e a legitimidade se corrói mais rapidamente do que as reformas conseguem repará-la. O problema se agrava quando a expansão da política social funciona sobretudo como canal indireto de financiamento da provisão privada, porque o aumento do gasto público pode ser percebido menos como alívio universal do que como uma transferência para o grande capital privado, que captura rendas em setores essenciais. Nesse contexto, a promessa de integração perde credibilidade não apenas por ser vulnerável a crises, mas também porque seu sentido distributivo se torna ambíguo.

    Portanto, uma agenda de desmercantilização da política social no Chile deve ser entendida como uma transformação do custo de vida, e não como uma retórica doutrinária antimercado. Os cidadãos avaliam projetos a partir de reduções concretas nos gastos obrigatórios. Aluguel, transporte, copagamentos em saúde, energia e cuidados são os verdadeiros campos de disputa. O Copago Cero é analiticamente importante porque sinaliza o tipo de plataforma universal capaz de reduzir diretamente os gastos do próprio bolso em larga escala. A economia estimada de CLP 202 bilhões para os beneficiários entre setembro de 2022 e maio de 2024 mostra a magnitude do alívio que um desenho universal pode gerar quando implementado por meio de uma rede pública dominante. A mesma lógica se aplica à habitação e ao cuidado. O Estado precisa expandir plataformas universais que funcionem seja como opção padrão, seja como referência regulatória que discipline os preços privados, de modo que o gasto público se traduza em alívio verificável, e não em um fluxo mediado de pagamentos a prestadores com poder de mercado.

    Um programa de esquerda crível no Chile dificilmente se parecerá com uma substituição total do setor privado. Ele deve assumir a forma de uma reconfiguração gradual, mas irreversível, do papel público. Isso implica bancos de desenvolvimento, compras públicas e orientação do investimento para transformar a estrutura de oferta que determina o custo de vida. Implica também plataformas públicas de saúde, cuidado, transporte e energia, capazes de reduzir a volatilidade de preços e a exposição das famílias a gastos diretos. Significa endurecer a regulação em mercados cativos e aprimorar regras trabalhistas que fortaleçam a redistribuição. E exige uma base tributária capaz de financiar essas políticas de forma permanente. O fracasso da reforma tributária de 2023 ilustra o quanto a redistribuição é frágil sem uma arquitetura estável de receitas.

    Por fim, a esquerda precisa reconstruir uma narrativa de integração que vá além do acesso e que não dependa de momentos excepcionais. As transferências da pandemia criaram um parâmetro que não pode ser replicado de forma permanente. Um projeto sustentável precisa, portanto, traduzir a memória dessa escala em outro tipo de permanência: não cheques emergenciais, mas reduções permanentes no custo de vida e garantias duradouras de provisão.

    Esse é o verdadeiro significado da crise chilena para a esquerda após a vitória de Kast. O eleitorado não votou apenas pela direita. Votou contra a implausibilidade. Reconstruir credibilidade exige um programa capaz de produzir melhorias visíveis na segurança material sem romper a estabilidade de uma economia aberta. Sem isso, o reformismo voltará a ser punido e a demanda por ordem continuará a deslocar a demanda por direitos.






  8. Como quem faz bicicletas

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    Fabricado no Irã, o drone Shahed-136 é uma arma simples. As asas em delta, com 2,5 metros de envergadura, são feitas de fibra de vidro e têm dois estabilizadores verticais fixos nas extremidades. As superfíces de controle traseiras são operadas por servomecanismos simples. O drone é equipado com um sistema de piloto automático, um receptor de posicionamento global e um módulo de dados. A propulsão é fornecida por um motor básico de quatro pistões, refrigerado a ar e fabricado em alumínio fundido, que gera 50 cavalos de potência para acionar uma hélice. Apesar de seguir especificações próprias para a aviação, o motor não é muito diferente do de uma motocicleta pequena. O drone pode transportar uma ogiva de 40 quilos em uma velocidade de 185 km/h por até 2 mil quilômetros.  

    Nos últimos dias, esse modesto equipamento abalou a economia global. Desde 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra ilegal contra o Irã, forças iranianas responderam lançando milhares de drones Shahed-136 contra alvos em toda a região. Os ataques atingiram não apenas instalações militares, mas também infraestrutura civil, incluindo refinarias, usinas de energia, aeroportos, hotéis e navios. Os drones se tornaram elemento central da estratégia de retaliação iraniana e levaram à paralisação do tráfego marítimo e aéreo. Os ataques têm forçado os reinos do Golfo, Israel e os Estados Unidos a usar mísseis interceptadores caros e escassos para se defender. Ainda que a maioria das interceptações tenha sido bem-sucedida, o volume extraordinário de lançamentos permitiu ao Irã atingir muitos de seus alvos.

    Para entender as armas aéreas de longo alcance que intensificaram a devastação causada pelo conflito até agora e o estrago produzido pelos drones iranianos, muitas reportagens focaram na análise dos custos da plataforma Shahed-136. Dezenas de textos situam o preço desses drones entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma pequena fração do custo dos mísseis interceptadores, cujo valor unitário pode chegar a US$ 3 milhões. 

    Esse contraste tem chamado grande atenção como retrato das rápidas transformações da guerra contemporânea. Mas a comparação é realmente precisa? Uma análise do think tank CSIS sobre o preço da variante russa do Shahed-136 mostra como essas estimativas costumam ser pouco rigorosas.

    É difícil determinar com precisão o custo unitário dos drones do tipo Shahed utilizados pela Rússia, que o país produz domesticamente sob o nome Geran-2. Em janeiro de 2023, um especialista israelense em mísseis estimou que cada drone custaria entre US$ 20 mil e US$ 30 mil por drone. Mais tarde, um analista britânico situou o valor mais próximo de US$ 80 mil, com base em uma inspeção pessoal dos componentes de um Shahed-136 capturado em outubro de 2022. A Forbes Ucrânia, por sua vez, utilizou o valor de US$ 50 mil por unidade para calcular o custo dos ataques russos. Nos nossos cálculos, adotamos um custo unitário conservadoramente alto, de US$ 35 mil, o ponto médio entre a estimativa mais baixa e o valor de US$ 50 mil citado com maior frequência.

    A maioria das estimativas sobre o custo do Shahed-136 baseia-se nas variantes russas, e nenhuma parece resultar de uma análise detalhada dos componentes de um drone produzido no Irã. Na prática, é possível que o custo de produção dos drones iranianos seja muito mais baixo do que se imagina. Os Estados Unidos e Israel têm recorrido tanto a sanções quanto a ataques militares na tentativa de tornar a condução da guerra “cara demais” para o Irã. Mas, à medida que essa guerra de escolha se espalha pela região e mergulha a economia global em turbulência, torna-se essencial compreender o quão “baixo” pode ser o custo do conflito bélico hoje. 

    O custo de um Shahed

    Um custo unitário de US$ 35 mil para a produção do Shahed-136 representaria um grande fracasso da indústria de defesa do Irã. O país tem priorizado o desenvolvimento de plataformas baratas, com capacidade de produção em série e baixa dependência de componentes importados. A mídia iraniana não divulga o custo de produção do Shahed-136. Curiosamente, reportagens publicadas em farsi costumam adotar a mesma faixa de US$ 20 mil a US$ 50 mil difundida nos meios de comunicação ocidentais.

    Recentemente, os Estados Unidos anunciaram sua própria versão do Shahed-136, chamada Low-cost Uncrewed Combat Attack System (LUCAS). À imprensa, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) informou que o LUCAS tem um custo de produção de US$ 35 mil. Esse é o indício mais claro de que o custo atribuído ao Shahed-136 tem sido sistematicamente superestimado. Embora seja ligeiramente menor, o LUCAS é um drone mais avançado, produzido com materiais compósitos, maior precisão e mais recursos, incluindo um terminal Starlink integrado. Mesmo que o LUCAS fosse mais rudimentar e, portanto, mais semelhante a um Shahed-136, as diferenças estruturais entre os fatores de produção envolvidos na indústria de defesa de cada um dos países—equipamentos, materiais e mão de obra, especialmente qualificada—implicam, necessariamente, que os dois drones não têm custos de produção semelhantes. 

    Produzir um drone kamikaze no Irã não pode custar o mesmo que fabricar um drone semelhante nos Estados Unidos, onde a mão de obra é mais cara, os materiais são mais avançados e a tecnologia empregada é mais sofisticada. Por isso, perguntei a um pesquisador em Teerã, familiarizado com a indústria de defesa iraniana, se ele conhecia alguma estimativa para o custo de produção de um Shahed-136. Ele consultou alguns colegas e a cifra que trouxe de volta foi de IRR 6 bilhões, cerca de US$ 4 mil à taxa de câmbio atual. Verificar a precisão desse valor está além do escopo deste texto, mas ele sugere que o Shahed-136 pode ser muito mais barato de produzir do que se tem reportado.

    Um preço unitário de US$ 4 mil é evidentemente muito inferior à maioria das estimativas amplamente divulgadas. Por um lado, o valor em dólares reflete a forte desvalorização do rial iraniano, impulsionada pela pressão das sanções sobre o mercado cambial do país. Nesse sentido, a taxa de câmbio pode fazer com que os drones pareçam mais baratos do que realmente são. Por outro lado, o preço baixo pode refletir o elevado grau de nacionalização da produção do Shahed-136. Mais do que o volume efetivo de divisas necessário, ele indicaria a disponibilidade relativa de materiais, equipamentos e mão de obra para fabricar esses drones. Meu interlocutor insistiu que a produção do Shahed-136 já está totalmente nacionalizada, o que significa que os principais componentes são montados domesticamente.

    Há diversos relatos de que o motor MD-550 utilizado no Shahed-136 é produzido integralmente no Irã. Os componentes eletrônicos podem ser montados domesticamente a partir de antenas, microcontroladores, reguladores de tensão e osciladores importados. A montagem local desses componentes não apenas reduz custos, mas também ajuda a preservar as cadeias de suprimento diante das sanções. Componentes completos, como sistemas de piloto automático, podem ser classificados como de “uso dual” e, por isso, são mais difíceis de obter. Especialistas iranianos assessoraram a implantação da linha de produção do drone russo Geran-2 no parque industrial de Alabuga, o que permite entrever práticas de fabricação provavelmente semelhantes às empregadas no Irã. O diretor da fábrica russa descreveu publicamente um processo de produção altamente eficiente: “Entram barras de alumínio, delas saem os motores; chips viram microeletrônica; fibra de carbono e fibra de vidro viram fuselagens: produção totalmente local.” Segundo o Institute for Science and International Security, a instalação de Alabuga informa atualmente uma produção anual entre 18.540 e 24.460 drones.

    Dadas as dinâmicas da taxa de câmbio e a provável baixa participação de componentes importados no Shahed-136,  a melhor maneira de entender o baixo custo desses drones no contexto da base industrial de defesa iraniana é comparar seu custo de produção com o de outros bens manufaturados, especialmente de produtos que também são fabricados nos Estados Unidos. Essa comparação ajuda a revelar as diferenças nos custos dos fatores de produção que estruturam a indústria de defesa nos Estados Unidos e no Irã.

    Tratores

    Convenientemente, ambos os países possuem grandes setores agrícolas e produzem tratores domesticamente. Por exemplo, o John Deere 5075M, fabricado em Augusta, na Geórgia, tem capacidades e características semelhantes às do trator ITM 475, produzido pela Iran Tractor Company em Tabriz. Ambos utilizam motores de combustão interna movidos a gasolina ou diesel com cerca de 75 cavalos de potência e tração nas quatro rodas. O trator da John Deere possui eletrônica mais avançada e utiliza um motor com turbocompressor, mas os dois modelos têm dimensões semelhantes, produzem potência comparável e oferecem funcionalidades similares.

    No início do ano passado, o preço de fábrica do ITM 475 era de IRR 8,5 bilhões. Descontando o IVA e considerando a margem bruta da Iran Tractor Company—que costuma girar em torno de 13%, segundo documentos da empresa—, o custo de produção do ITM 475 pode ser estimado em IRR 6,8 bilhões. Utilizando a taxa de câmbio corrente no início de 2025, isso significa que o custo de produção do ITM 475 era de cerca de US$ 7 mil. Em comparação, o preço de tabela do John Deere 5075M era de aproximadamente US$ 50 mil no mesmo período. Considerando uma margem bruta de cerca de 25%, conforme os relatórios da John Deere, e margens de concessionária em torno de 8%, o preço de fábrica provavelmente girava em torno de US$ 35 mil. Em outras palavras, os custos dos fatores de produção para um trator produzido em série são cerca de cinco vezes maiores nos Estados Unidos do que no Irã.

    A matemática dos tratores e a matemática dos drones se encaixam de forma bastante clara. Aplicando a proporção de cinco para um nos custos de manufatura—revelada pela comparação entre os tratores—ao custo de produção de US$ 35 mil da plataforma LUCAS, chega-se a um preço de cerca de US$ 7 mil para um Shahed-136 fabricado no Irã. Em outras palavras, com os recursos que os Estados Unidos utilizam para produzir um LUCAS, o Irã pode fabricar cinco Shahed-136.

    Devido às dinâmicas da taxa de câmbio, mencionar um preço em dólares para explicar o custo de produção dos drones iranianos pode dar uma impressão distorcida. O preço iraniano deve ser comparado ao de um sistema americano semelhante para revelar a diferença nos custos dos fatores de produção. Em última instância, a principal conclusão aqui é que, para o Irã, produzir um drone Shahed-136 exige aproximadamente o mesmo volume de recursos e trabalho que fabricar um trator agrícola básico. Nesse sentido, a comparação puramente monetária subestima a capacidade do Irã de sustentar sua atual campanha de drones. A Iran Tractor Company produz cerca de 35 mil tratores por ano, mesmo sob as severas restrições das sanções de “pressão máxima”. E um drone tampouco é muito mais complexo de fabricar do que um pequeno automóvel: o setor automotivo iraniano produz mais de 1 milhão de veículos de passeio por ano, apoiado por uma grande indústria de aço e alumínio e por uma ampla base doméstica de fabricantes de autopeças. Em suma, o Irã dispõe de uma capacidade industrial e de estoques de materiais consideráveis, que podem ser deslocados da produção civil para a produção de defesa diante das urgências da guerra.

    As sanções econômicas e os controles de exportação não conseguiram afetar significativamente a capacidade do Irã de produzir drones, dado o baixo custo da plataforma e o avanço da nacionalização da produção. Agora, forças americanas e israelenses recorrem ao poder militar para atingir o arsenal de drones iraniano. Ataques aéreos têm mirado instalações pertencentes à fabricante do Shahed-136, a Iran Aircraft Manufacturing Industrial Company, também conhecida como HESA. O Irã, porém, tende a responder dispersando a produção de drones por diversas instalações, inclusive subterrâneas. Autoridades americanas também discutem a aquisição de drones interceptadores ucranianos como uma forma mais econômica de defesa contra o Shahed-136. Esses sistemas, embora mais baratos do que o emprego de baterias Patriot ou THAAD, devem oferecer apenas uma melhoria marginal nas taxas de interceptação, que já se aproximam de 100%.

    O general Hossein Salami, que comandou o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica até morrer em um ataque aéreo israelense no ano passado, disse certa vez que os avanços da indústria de defesa iraniana haviam tornado a fabricação de sistemas de armas “tão fácil quanto produzir bicicletas.” O custo real de produção do Shahed-136 sugere que sua afirmação estava mais próxima da verdade do que seus adversários gostariam de admitir.






  9. Amazônia como campo de batalha?

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    Em novembro passado, a floresta amazônica sediou pela primeira vez uma cúpula da COP. Não por acaso, a preservação das florestas tropicais ocupou o centro da agenda, com todo tipo de discussão sobre esquemas multilaterais de financiamento e garantias para os povos indígenas. Os debates de alto nível, no entanto, negligenciaram muitas das políticas públicas e coalizões locais que são igualmente decisivas para o futuro do bioma. Para preencher essa lacuna, pensei que seria útil explorar a economia política das políticas ambientais no Brasil, país que abriga cerca de um terço das florestas tropicais remanescentes do mundo e quase 60% da Amazônia. É uma história em dois tempos: os mesmos métodos que permitiram uma redução substancial do desmatamento ao longo da década de 2000—o que levou o Brasil a fazer a maior contribuição individual para a redução global dos gases de efeito estufa—num segundo momento, contribuíram para a emergência de um movimento de extrema direita negacionista das mudanças climáticas que acabou colocando em risco os frágeis ganhos da etapa anterior. 

    “Um campo de batalha disfarçado de selva” foi como o Guardian se referiu à floresta amazônica ao descrever a violência brutal que tirou a vida de Dom Phillips e Bruno Pereira, mortos por sua luta em defesa de comunidades indígenas contra atividades ilegais. Mas a Amazônia também é concebida como campo de batalha em outro sentido, por ser um território decisivo na luta contra o colapso climático. De fato, o combate ao crime organizado—do tráfico de drogas à grilagem de terras e à mineração ilegal—constitui uma das dimensões do esforço para impedir que a floresta atinja seu ponto de não retorno. A metáfora militar, no entanto, parece ter ido longe demais: o debate sobre política ambiental no Brasil é excessivamente voltado à necessidade de policiamento e “aplicação da lei”. De modo emblemático, a estratégia de redução do desmatamento adotada nos anos 2000 ficou conhecida como política de “comando e controle”. 

    A abordagem de comando e controle foi indiscutivelmente bem-sucedida em reduzir o desmatamento. Ao mesmo tempo, suscitou uma reação adversa que não só reverteu muitos de seus resultados—especialmente durante a presidência de Jair Bolsonaro—, mas colocou em risco a própria sobrevivência da floresta. Em resposta, no terceiro mandato de Lula, defensores da antiga estratégia do PT tentam restabelecê-la por meio de uma interpretação das duas últimas décadas que se encaixa perfeitamente na ideia do “campo de batalha”: houve avanços na primeira década do novo século, perdas nos anos 2010 e, agora, inicia-se uma contraofensiva nos anos 2020, apresentada como capaz de conduzir a uma vitória definitiva.

    A realidade, no entanto, costuma ser mais complexa do que as metáforas militares são capazes de capturar. Ainda que o conflito entre destruidores e defensores da floresta seja intenso, grande parte das 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia brasileira não podem ser facilmente encaixadas em uma das duas categorias. Ao alienar uma parte significativa da população local, a abordagem de comando e controle plantou as sementes da própria ruína: não apenas antagonizou as elites agrárias, mas também incitou reações entre um vasto eleitorado de pequenos e médios proprietários de terras. Nesse sentido, pode-se dizer que o modelo de política ambiental adotado foi parcialmente responsável pela ascensão política de uma extrema direita patrocinada pelo capital do agronegócio—que, nas últimas décadas, transbordou o âmbito dos interesses setoriais para se consolidar como um movimento político cada vez mais assertivo, voltado à disputa hegemônica no cenário nacional.

    Para reconstituir esse percurso histórico, farei um breve balanço da ascensão e do declínio da estratégia de comando e controle e explicarei como ela acabou comprometendo o governo com uma lógica ambiental falha, conhecida como land-sparing (ou poupança de terras, na tradução mais recorrente em português), segundo a qual se pressupunha uma relação de soma zero entre conservação e ocupação humana. Ao se apegar à imagem da Amazônia como natureza intocada, essa orientação contribuiu para a guinada à direita do país e negligenciou modelos de conservação mais promissores.

    Arena de disputa

    Após décadas de comoção global, assassinatos dramáticos e planos desastrosos de “colonização” da floresta tropical pelo governo militar brasileiro, a Amazônia passou por uma mudança marcante durante os anos 2000. A literatura especializada descreve o período entre 2004 e 2012 de maneiras variadas: como o da “construção de instituições climáticas”, da “ascensão dos reformistas” ou, como mencionado acima, “da política de comando e controle”. Independentemente da adjetivação, a história geralmente começa com a ascensão de Lula à presidência em 2003 e, no ano seguinte, a introdução do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm). O primeiro governo do PT, alinhado com os movimentos ambientalistas e indígenas, se engajou em um processo ativo de construção institucional, rompendo com a timidez característica das políticas ambientais da década anterior e, sobretudo, com o apoio deliberado do Estado ao desmatamento durante a ditadura militar.

    A ofensiva de comando e controle não pode ser compreendida sem levar em conta o DETER, sistema público de monitoramento do desmatamento em tempo real lançado em 2004, baseado em imagens de satélite. Até então, os esforços de fiscalização eram prejudicados pela periodicidade anual dos dados. A disponibilidade de informações atualizadas garantiu ao Estado enorme eficácia na identificação dos responsáveis pelo desmatamento ilegal e sua posterior punição, que poderia incluir sanções, multas e apreensões de maquinário.

    O desmatamento legal na Amazônia já havia sido restringido na virada do milênio, quando o governo aumentou o volume mínimo da “reserva legal”—a parcela de uma propriedade que não pode ser desmatada—de 50% para 80%. Embora essa regra tenha sido posteriormente enfraquecida por diversas exceções, a forte reação de proprietários rurais sugere que ela produziu efeitos concretos, ainda que por tempo limitado. Além disso, o governo criou uma série de unidades federais de conservação e demarcou diversas terras indígenas, o que resultou, entre 2004 e 2008, em um aumento de cerca de um quarto na área total sob proteção. Esses territórios ficaram conhecidos como “barreiras verdes” contra o desmatamento.

    Confrontadas com esse novo ambiente regulatório e sob intensa pressão de grupos ambientalistas, gigantes do comércio de grãos—ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus—que dominavam a cadeia de suprimento da soja firmaram, em 2006, a chamada moratória da soja. A partir de então, a compra de grãos provenientes de terras desmatadas foi proibida. Tentativas semelhantes de autorregulação foram posteriormente adotadas na cadeia de suprimento da carne bovina. No mesmo período, ferramentas adicionais para alcançar metas ambientais também começaram a ser testadas. Em 2007, o governo passou a divulgar anualmente uma lista de municípios da Amazônia com tendências preocupantes de desmatamento, conferindo à União maior poder de intervenção sobre eles; e, em 2008, proibiu a concessão de crédito rural a proprietários que não estivessem em conformidade com a legislação ambiental. Os resultados foram impressionantes. Do auge ao declínio, entre 2004 e 2012, o desmatamento na Amazônia Legal—a porção brasileira da floresta tropical e partes do cerrado circundante—caiu de 27,8 para 4,6 mil km² por ano.

    Rebote

    Na passagem dos anos 2000 para os anos 2010, um ponto de inflexão começou a se delinear. Entre 2008 e 2012, o número de autos de infração e de apreensões de equipamentos caiu de forma contínua. O número de sanções também diminuiu entre 2008 e 2009, antes de voltar a crescer a partir de 2010. À primeira vista, poderia parecer que esses instrumentos se tornaram menos necessários à medida que o cumprimento das normas se difundia. Mas isso só seria verdade se as taxas de desmatamento tivessem se mantido baixas, e ocorreu justamente o contrário: a partir de 2013, o desmatamento voltou a crescer, desfazendo, até 2021, mais de um terço dos ganhos obtidos pelos governos do PT (ver figura abaixo). Parte desse movimento se explica pelo fato de o Congresso ter cedido à pressão do agronegócio e aprovado, em 2012, um novo Código Florestal que concedeu anistia a uma parcela significativa do desmatamento ilegal ocorrido no passado.

    Esses foram apenas os primeiros sinais de uma reversão mais profunda. Com a destituição do PT da presidência em 2016—por meio de um impeachment aprovado com o apoio decisivo de setores do agronegócio—, deu-se início a um processo gradual de desmonte das instituições ambientais construídas no período anterior, movimento que atingiu seu ápice sob o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. Órgãos de fiscalização foram enfraquecidos, áreas protegidas tiveram sua extensão reduzida e defensores do desmatamento passaram a ocupar cargos estratégicos no governo. Em pleno auge da pandemia, o então ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro chegou a sustentar, em uma reunião vazada à imprensa, que a Covid oferecia a distração perfeita para desmontar a política ambiental: uma janela de oportunidade para passar a boiada.

    O retorno de Lula ao poder em 2023 não arrefeceu o rebote. O episódio mais emblemático recente foi a aprovação pelo Congresso de uma legislação que elimina a exigência de licenciamento ambiental obrigatório e de consulta pública para uma série de atividades, incluindo a maior parte dos empreendimentos agrícolas, de pecuária e de mineração. O mais grave ato de desmonte institucional até aqui, a “Lei da Devastação”, como ficou conhecida, tem grande potencial para acelerar projetos associados ao aumento do desmatamento, como a construção de ferrovias e rodovias destinadas ao transporte de soja para portos na região norte do Brasil e no Peru e a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. Embora Lula tenha inicialmente desautorizado os dispositivos mais danosos, a bancada do agronegócio derrubou 56 dos 63 vetos presidenciais.

    Em nível subnacional, a legislação tem avançado em direção semelhante. Desde 2024, diversos estados da federação aprovaram leis que impedem empresas em conformidade com a moratória da soja de acessar incentivos fiscais. Embora os  incentivos estaduais sejam bastante limitados em comparação aos federais, a nova regulamentação ofereceu às gigantes do comércio de grãos a desculpa perfeita para, finalmente, pôr fim à moratória, o que efetivamente ocorreu no mês passado. 

    Não é fácil encontrar explicações detalhadas para a força dessa reação antiambiental. Isso se deve, em parte, à orientação predominante da literatura sobre políticas ambientais no Brasil, que tende a se concentrar nos diferentes instrumentos de política e em suas interações, mas, como aponta Gregory Thaler, falha em oferecer um “relato político que vá além de fatores imediatos e examine os atores e interesses que produzem o ambiente de políticas públicas”. Na síntese de Thaler, “o caráter político-econômico da transição amazônica no Brasil ainda não foi adequadamente teorizado.”

    O trabalho de Kathryn Hochstetler constitui uma das poucas exceções. A ênfase do PT em medidas repressivas, argumenta ela, não conseguiu formar uma base política capaz de garantir a continuidade de seu projeto ambiental. Ao contrário, acabou fomentando uma oposição agressiva: “as ferramentas de comando e controle foram cruciais para reduzir as taxas de desmatamento, mas o próprio êxito em limitar o comportamento econômico privado também estimulou estratégias políticas que ajudaram a minar esses mesmos instrumentos e as instituições que os sustentavam.” Como exemplo, Hochstetler cita o crescimento da bancada do agronegócio, que passou de 120 cadeiras na legislatura de 2007–2010 para 160 após 2011, ou seja, de 23% para 31% do total—movimento que foi apenas o primeiro passo de um ataque institucional muito mais amplo.

    Mas, embora a marcha das forças pró-desmatamento rumo aos centros de poder seja uma parte crucial da história, o quadro completo só é formado quando se examinam os dilemas da estratégia de comando e controle no plano local. Estudos de municípios específicos—a exemplo dos que fizeram Thaler e seus coautores—revelam as fraturas abertas pela ofensiva ambiental dos anos 2000 e mostram em que medida um amplo descontentamento com essa estratégia favoreceu o fortalecimento político do agronegócio desde a década de 2010. 

    Land-sparing e seus descontentes

    No conjunto de políticas ambientais dos anos 2000, coexistia uma série de instrumentos distintos, concebidos para atender às demandas de diferentes grupos—como o apoio a práticas agroecológicas, políticas voltadas à soberania alimentar e iniciativas de reparação histórica às populações indígenas. A lógica predominante da estratégia de comando e controle, contudo, era a do land-sparing: conter o desmatamento por meio da proteção de determinadas áreas contra qualquer uso humano, ao mesmo tempo em que se permitia a “intensificação sustentável” de uma agricultura capital-intensiva em outras regiões. A ideia de intensificação sustentável circula há bastante tempo como uma solução técnica destinada a tornar a agricultura capitalista em larga escala compatível com objetivos ambientais. Sua encarnação mais recente passou a ser conhecida como “agricultura climaticamente inteligente” (climate-smart agriculture).

    Na medida em que as gestões de Lula na década de 2000 se empenhavam na difícil tarefa de conciliar demandas redistributivas e ambientais dentro de um padrão de acumulação ancorado nas exportações do agronegócio e dependente de uma integração subordinada à economia chinesa, as políticas de land-sparing foram bastante convenientes. A expansão das áreas de cultivo de soja e da pecuária não só reconfigurou a geografia econômica do país, como também garantiu acesso a divisas externas. Os dados abaixo ilustram a magnitude dessa transformação no caso da soja—a commodity agrícola mais comercializada globalmente em termos de valor. Nos últimos anos, soja, carne bovina e produtos correlatos passaram a responder por cerca de um quinto das exportações brasileiras, frente a um patamar inferior a 10% duas décadas atrás (ver figura).

    Thaler descreve como os interesses de corporações agroindustriais, agentes governamentais e ambientalistas convergiram, no Brasil dos anos 2000, para dar origem a um “complexo de land-sparing”. Esse projeto, contudo, não reservava um lugar claro para a vasta população de pequenos e médios proprietários que ocupa os principais cinturões agrícolas do país. Diante dos custos envolvidos na adaptação às novas políticas e da dificuldade percebida de acesso ao apoio estatal, a abordagem levou, nas palavras do autor, a um processo de “desapropriação dos pequenos proprietários”: “enquanto os pequenos lutam para sobreviver, os grandes proprietários consolidam suas terras.” Paralelamente a esse viés de política pública, a chamada intensificação sustentável teve impactos sanitários significativos sobre os pequenos produtores, engendrando o que Fábio Zuker descreveu como uma “expulsão por asfixia” operada pela violência química de uma agricultura intensiva em glifosato (o “complexo” de preservação de terras também teve efeitos questionáveis sobre a biodiversidade, como aponta a vasta literatura sobre os efeitos rebote e demais consequências da intensificação da soja).

    Ao observar os efeitos colaterais do PPCDAm em dois municípios amazônicos, Thaler concluiu que “medidas punitivas sem incentivos correspondentes prejudicam os pequenos produtores, que dispõem de menos recursos para lidar com multas ou investir em processos de intensificação.” Hochstetler concorda: “quando alcançam os pequenos agricultores, as novas políticas agrícolas e de combate ao desmatamento se manifestam, sobretudo, por seu lado punitivo”. Ao afetar os pequenos proprietários, as políticas ambientais favoreceram os interesses dos grandes proprietários e do capital agrário—uma forma indireta de apropriação verde (green grabbing).

    Em sua detalhada etnografia da política do agronegócio no Brasil, Caio Pompeia mostra como esses “grupos de empregadores agrícolas politicamente e economicamente subordinados” constituíram a base do que ele denomina agrobolsonarismo: a união espúria entre interesses agrários e a política de extrema direita. Pompeia descreve como esses grupos radicalizados, descontentes com a estratégia de comando e controle, progressivamente capturaram organizações políticas rurais—das associações estaduais de produtores de soja à bancada do agronegócio no Congresso. De início, as grandes corporações agroindustriais resistiram a esse movimento: já haviam aprendido a conviver—e lucrar—com as políticas do governo. Gradualmente, porém, passaram a enxergar nele uma oportunidade de remover restrições ambientais e ampliar sua influência política. Assim, começaram a colaborar—a princípio, nos bastidores—com a mobilização de extrema direita que surgia a partir das bases. 

    Na estrutura social brasileira, esses “grupos de empregadores agrícolas subordinados” ocupam o topo de um espectro demográfico mais amplo, cujos meios de vida são ameaçados de forma ainda mais direta pela expansão voraz do agronegócio: povos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, além dos próprios trabalhadores rurais—classes populares que compõem a base social dos defensores da floresta. Mas seria um equívoco supor que a ofensiva de comando e controle do PT tenha representado uma vitória dos interesses desses grupos sobre os das elites agrárias. Aqui, a leitura da Amazônia como “campo de batalha” revela sua insuficiência. Em graus variados, a política de land-sparing foi inicialmente aceita por corporações agroindustriais e por muitos dos grandes proprietários justamente porque perceberam nela uma oportunidade de acumular mais terras. Em vez de fortalecer os defensores da floresta frente ao capital agroindustrial, a estratégia acabou por colocá-los em confronto com o outro grupo prejudicado, o de empregadores agrícolas relativamente subordinados, criando uma cisão política com profundas consequências históricas.

    Enquanto as corporações agroindustriais reforçavam seu controle sobre o Estado brasileiro, explorando a crescente dependência econômica do país em relação às commodities primárias, o agrobolsonarismo forneceu uma sólida base territorial para uma política antiambiental. Quando o apoio ao Partido dos Trabalhadores entrou em declínio em meados da década de 2010, a extrema direita estava pronta para ocupar o espaço deixado pelo partido e mobilizar o interior do país—dos grandes proprietários aos pequenos produtores. O movimento conquistou resultados eleitorais expressivos nas áreas dominadas pelo cultivo de soja e pela pecuária. Embora a dinâmica eleitoral seja moldada por uma série de fatores complexos, os padrões geográficos apresentados nos mapas abaixo apontam para uma conclusão contundente: a ascensão do agrobolsonarismo levou ao quase completo desaparecimento de municípios com inclinação petista no cinturão agrícola que se estende do sul do Brasil até a Amazônia.

    A quimera da preservação

    Hoje, esse paradoxo da política ambiental parece se anunciar em diferentes esferas da política climática: enquanto instrumentos tecnológicos de enfrentamento à crise se multiplicam, faltam as condições políticas necessárias para colocá-los em operação. Chamada por alguns de greenlash, essa dinâmica se manifestou na Amazônia já na primeira década do século: sistemas sofisticados de monitoramento por satélite e uma legislação detalhada conseguiram conter o desmatamento, mas, ao fazê-lo, acabaram por desencadear reações políticas que aprofundaram a vulnerabilidade estrutural da floresta.

    Dispensa dizer que a alternativa não pode ser jogar a toalha e abandonar o objetivo de salvar a floresta. O desafio é construir uma nova aliança capaz de mantê-la em pé. Essa coalizão deve incluir grupos que vão dos povos indígenas aos empregadores agrícolas em posição subordinada, unidos por sua oposição à agricultura corporativa. Em termos concretos, isso implica apostar em alternativas à preservação que partam das múltiplas possibilidades de interação humana harmônica com a natureza. Biólogos conservacionistas cunharam o termo land-sharing, ou compartilhamento de terras, para descrever essa abordagem, que envolve “o trabalhoso e complexo processo de harmonização ecológica em paisagens produtivas diversas”.

    Do ponto de vista político, o land-sharing é muito mais desafiador do que o land-sparing, pois implica um enfrentamento direto ao agronegócio; ao mesmo tempo, é também muito mais promissor. Ele abre a possibilidade de reconciliar as dimensões ecológica e social na formulação de políticas públicas para a Amazônia, não partindo do zero, mas tomando como base práticas sociais e tradições já existentes, forjadas na resistência histórica ao avanço do grande capital agrário. “A agroecologia implementada em projetos de assentamento”, escreve Felipe Milanez, “assim como o manejo coletivo dos castanhais, as reservas extrativistas e a demarcação de terras indígenas constituem espaços de uso comum que confrontam materialmente os cercamentos e a expansão dos latifúndios.” Isso significaria abandonar a lógica do campo de batalha e imaginar um futuro amazônico no qual floresta e povos possam coexistir.

  10. O dólar sob Trump

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    Passado um ano do segundo mandato de Donald Trump, a ordem econômica global já foi tão repaginada que mal chamaria atenção se fosse passar férias em Mar-a-Lago. Trump transformou sua famosa afeição por tarifas—impostas a aliados e adversários indistintamente—em uma verdadeira agenda de rejuvenescimento nacional. Analistas perplexos ensaiam explicações diversas para as novas restrições comerciais: seriam elas uma ruptura com o papel histórico dos Estados Unidos na tutela do capitalismo mundial; um instrumento de coerção destinado a forçar concessões; ou, ainda, mera ostentação de poder? Ainda não se formou qualquer consenso sobre a natureza dessa mudança ou suas implicações de longo prazo.

    Há quem busque respostas em um documento programático publicado por Stephen Miran, ex-conselheiro econômico da campanha de Trump e atual membro do conselho do Federal Reserve, didaticamente intitulado A User’s Guide to Restructuring the Global Trading System, ou “Manual para Reestruturar o Sistema Comercial Global”, em português. Ao convocar uma “mudança geracional” para “colocar a indústria americana em condições mais justas em relação ao resto do mundo”, sugerindo a utilização de tarifas como principal instrumento, o documento expõe a lógica por trás de muitas das decisões tomadas no último ano. Para Miran, cinco décadas de dólar forte tornaram as exportações americanas caras demais para o resto do mundo e baratearam as importações a ponto de torná-las irresistíveis para os consumidores internos. O resultado teria sido a deterioração da manufatura e da produção industrial do país. “A persistente sobrevalorização do dólar”, segundo ele, se deve ao fato de que “ativos denominados em dólar funcionam como moeda de reserva mundial”. “Financiar o fornecimento de ativos de reserva e o guarda-chuva de defesa” se tornou um fardo para os EUA, especialmente porque “os setores manufatureiro e de bens comercializáveis arcam com a maior parte dos custos”.

    Miran não é o único a defender a desvalorização do dólar. A crença de que o papel global da moeda coloca os EUA em desvantagem estrutural tem uma longa história, remontando às primeiras décadas do pós-guerra. Que essa perspectiva tenha atravessado o mundo do câmbio fixo e da conversibilidade em ouro e chegado ao entorno de Trump, no entanto, revela um profundo equívoco sobre o funcionamento do sistema monetário internacional do século XXI. À medida que as obrigações monetárias se imbricaram no universo inflado das finanças, a antiga suposição de que o comércio é a base das taxas de câmbio deixou de dar conta da realidade.

    Hoje, a maioria das obrigações em dólares ultrapassa as fronteiras dos Estados-nação. A criação offshore é tão disseminada que o dólar pode ser entendido como uma moeda privatizada e, em certa medida, “desnacionalizada”. A vasta rede de criação, negociação e concessão de crédito em dólares fora dos Estados Unidos constituiu um Sistema Offshore do Dólar crucial para a sustentação do poder americano. Uma análise rigorosa desse sistema refuta a premissa defendida por Miran de que a condição de devedor dos EUA seria um sintoma de declínio—e, consequentemente, de que a desvalorização cambial por meio das tarifas abriria caminho para a recuperação.

    A seguir, descreveremos o desenvolvimento do sistema monetário internacional desde Bretton Woods até a consolidação do dólar offshore. Então, examinaremos como esse arranjo deve ser reformulado nos próximos anos, à medida que a ofensiva tarifária mal calculada de Trump desencadeia guerras comerciais sem precedentes e intensifica a disputa com a China. Qual será o resultado dessa crescente desordem? Ao menos quatro desfechos despontam no horizonte, cada um impulsionado por seu próprio arranjo político: a formação de blocos monetários concorrentes, com alinhamentos geopolíticos próprios; a continuidade da globalização financeira, agora sob um papel mais coercitivo dos Estados Unidos; o colapso da ordem monetária, que desemboca em anarquia; e o surgimento de um novo sistema transnacional de compensação de pagamentos.

    Origens no pós-guerra

    Sob o Sistema de Bretton Woods, o dólar americano era lastreado em ouro. Todas as demais unidades de conta tinham taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis em relação ao dólar. A Figura 1 apresenta uma visão esquemática desse sistema e de suas várias “áreas monetárias”, caracterizadas por unidades de conta nacionais—ou moedas. Todas essas áreas monetárias, inclusive os Estados Unidos, dependiam da emissão de moeda pelos bancos centrais (cédulas e reservas) e da criação de moeda pelos bancos comerciais (depósitos).1Ver Steffen Murau e Tobias Pforr,(<)a href='https://www.cambridge.org/core/journals/finance-and-society/article/what-is-money-in-a-critical-macrofinance-framework/CE9C7DEB74D0D402686C172839078CFC'(>)“(<)em(>)What is Money in a Critical Macro-Finance Framework?(<)/em(>)”(<)/a(>), (<)em(>)Finance and Society.(<)/em(>) 2020; 6(1): 55–66.

    Figura 1—O Sistema de Bretton Woods

    CAD: dólar canadense; DM: marco alemão; FFR: franco francês; GBP: libra esterlina; ITL: lira italiana; USD: dólar americano.

    Nos primeiros anos do pós-guerra, as reformas bancárias do New Deal restringiram a atividade financeira americana fora do sistema bancário regulado. Os Estados dominavam o sistema monetário e financeiro. Instrumentos de criação de moeda, como a constituição de depósitos a partir de operações de crédito, operavam predominantemente onshore, circunscritos ao espaço institucional da jurisdição monetária. Havia, portanto, um “alinhamento triplo” entre os planos político, econômico e monetário. Apesar da conversibilidade em ouro, Bretton Woods operava essencialmente como um sistema de crédito, cujo centro de gravidade se localizava nos balanços do Fed e dos bancos norte-americanos.

    A posse de Richard Nixon como presidente dos EUA, no entanto, abalou o arranjo estatal e creditício do pós-guerra. Para Nixon, a estruturação do Sistema de Bretton Woods em torno do dólar operava contra os interesses do país. Argumentava-se que os EUA haviam passado do maior superávit comercial do mundo para o maior déficit. Assim, quando a fuga de ouro e a volatilidade dos mercados passaram a pressionar o sistema de câmbio fixo, Washington aproveitou a oportunidade para decretar unilateralmente, em 1973, o fim da conversibilidade do dólar em ouro: iniciava-se a era do câmbio flutuante.2Robert McCauley e Catherine Schenk (2020) (<)em(>)Central Bank Swaps Then and Now. Swaps and Dollar Liquidity in the 1960s(<)/em(>), (<)a href='https://www.bis.org/publ/work851.pdf'(>)https://www.bis.org/publ/work851.pdf(<)/a(>)

    O dólar, no entanto, continuou a exercer a função de  unidade de conta internacional. Isso exigiu que bancos centrais ao redor do mundo acumulassem instrumentos denominados em dólar em suas reservas internacionais—cédulas, depósitos e títulos do Tesouro americano.  Instituições financeiras privadas, por sua vez, começaram a criar seus próprios instrumentos denominados em dólares e a utilizá-los em pagamentos transfronteiriços, sem a intermediação de outras moedas nacionais. A criação e a circulação de dólares offshore, ou seja, para além da jurisdição formal do Fed, foram amplamente disseminadas. Era o fim do “alinhamento triplo”.

    Depois de Bretton Woods

    A Figura 2 apresenta uma visão geral da expansão da criação de dólares offshore. O mercado de eurodólares—dólares criados de forma privada e fora dos EUA—surgiu já no final da década de 1950, enquanto Bretton Woods ainda estava em vigor. À época, muitos banqueiros centrais viram o nascimento desse mercado como uma ameaça à soberania monetária e se esforçaram para impedir seu avanço. O choque Nixon de 1973, no entanto, marcou um ponto de inflexão: esses mesmos atores passaram a incentivar a criação offshore de dólares, que cresceu acentuadamente nas décadas seguintes.

    Nos Estados Unidos, a liberalização financeira deu origem a instrumentos que passaram a desempenhar o papel tradicionalmente exercido pelos depósitos bancários—dispositivos de moeda paralela (shadow money) como fundos do mercado monetário (MMFs, na sigla em inglês), acordos de recompra (repos) e títulos lastreados em ativos.3Morgan Ricks (2011) (<)em(>)Regulating Money Creation after the Crisis(<)/em(>), ,(<)a href='https://journals.law.harvard.edu/hblr/wp-content/uploads/sites/87/2014/09/Regulating-Money-Creation.pdf'(>) https://journals.law.harvard.edu/hblr/wp-content/uploads/sites/87/2014/09/Regulating-Money-Creation.pdf(<)/a(>). A partir dos anos 1980, esses instrumentos se difundiram em escala crescente também fora dos Estados Unidos.

    Figura 2—O surgimento do dólar offshore

    ABCPs: Títulos lastreados em ativos; MMF: Fundos do mercado monetário; Repos: Acordos de recompra.

    A crise financeira de 2007-2008 marcou uma virada: desencadeou simultaneamente uma corrida onshore contra o sistema bancário paralelo centrado nos EUA e uma corrida offshore no mercado de eurodólares. Ao reintroduzir as linhas de swap, o Federal Reserve interveio para salvar o Sistema Offshore do Dólar, comprometendo-se a fornecer liquidez emergencial ao resto do mundo—em alguns casos, em quantidades ilimitadas. Desde então, os instrumentos offshore denominados em dólares continuaram a se expandir, com o Fed atuando como garantidor global: pronto para intervir e fornecer dólares em condições excepcionais  sempre que o sistema der sinais de instabilidade, como aconteceu durante a crise do euro e a pandemia de Covid-19.

    A Figura 3 mostra a relação hierárquica entre as diferentes áreas monetárias do sistema pós-Bretton Woods. O dólar permanece no topo, e as demais moedas se organizam abaixo dele de acordo com seu acesso à liquidez em dólares. Logo abaixo dos Estados Unidos vêm a zona do euro, o Japão e o Reino Unido, que têm acesso irrestrito às linhas de swap do Federal Reserve. Em seguida, aparecem os BRICS, que, embora não disponham dessas linhas, ainda conseguem recorrer a outras formas de liquidez emergencial em dólares.4Isso é possível por meio da (<)a href='https://www.newyorkfed.org/medialibrary/media/research/epr/2022/epr_2022_fima-repo_choi.pdf'(>)Facilidade de Recompra para Autoridades Monetárias Estrangeiras e Internacionais(<)/a(>) (FIMA, na sigla em inglês) do Fed, à qual esses países têm acesso graças ao volume expressivo de títulos do Tesouro americano que podem oferecer como garantia. Na base, estão os países do Sul global, cuja principal via de obtenção de dólares em momentos de crise é o sistema de Direitos Especiais de Saque (DES) do Fundo Monetário Internacional.

    Figura 3—A estrutura do Sistema Offshore do Dólar

     BDT: taka de Bangladesh; BRL: real brasileiro; EUR: euro; GBP: libra esterlina; JPY: iene japonês; KES: xelim queniano; NGN: naira nigeriano; PKR: rupia paquistanesa; RMB: renminbi chinês; RUB: rublo russo; USD: dólar americano; ZAR: rand sul-africano; ZMW: kwacha zambiano.

    O poder do dólar

    Ao contrário de Bretton Woods, o Sistema Offshore do Dólar não foi planejado, mas se constituiu a partir de uma sequência de arranjos contingentes. Ainda que autoridades públicas tenham reiteradamente promovido o papel internacional do dólar, os principais motores desse processo foram atores de mercado, interessados em escapar ao controle regulatório por meio da criação de dólares offshore e de uma gama de instrumentos financeiros denominados na moeda americana. Essas atividades pouco reguladas desencadearam crises recorrentes, às quais tecnocratas e gestores públicos tentaram responder por meio de uma série de medidas ad hoc—como linhas de swap—que, por sua vez, eventualmente acabaram se integrando à própria arquitetura monetária global.

    Apesar de não ter sido planejado, não há dúvida de que esse sistema conferiu imensos privilégios aos EUA. Do alto dessa hierarquia, autoridades americanas podem usar o acesso às finanças internacionais como arma contra países situados em níveis inferiores: a hierarquia monetária é um meio crucial de exercer influência sobre a periferia global. O Tesouro americano também pode, assim, vender sua dívida no exterior a compradores que, na prática, são forçados a aceitar suas condições. Tudo isso opera em benefício das instituições financeiras americanas e preserva o status de Nova York como centro financeiro do mundo.

    Isso tudo implica que o Sistema Offshore do Dólar depende do Fed para manter sua integridade em momentos de crise. Choques no sistema tendem a levar atores de mercado a deslocar dólares offshore de volta para o onshore, momento em que o Fed passa a atuar como emprestador de última instância para o exterior.  Mas, uma vez que o Fed não tem mandato formal para desempenhar o papel de banco central mundial, ele precisa enquadrar sua oferta de liquidez de emergência a outros países como uma exigência da política interna. Essa é uma vulnerabilidade política que críticos como Miran agora exploram, alegando que os interesses nacionais estariam sendo subordinados à estabilização da ordem econômica internacional. Para Miran, a prática de fornecer moeda ao resto do mundo teria forçado os Estados Unidos a acumular um enorme déficit comercial, um “sacrifício”, em suas palavras, em nome da supremacia global do dólar.

    No entanto, isso é uma inversão da realidade. Seria mais correto dizer que o domínio do dólar—como moeda parcialmente desnacionalizada—é justamente o que permite aos EUA importar muito mais do que exportam. Embora o país tenha se endividado amplamente em relação ao resto do mundo, sua dívida é denominada em uma moeda cujo meio de liquidação permanece sob seu controle. Os EUA também conseguem financiar parte desse déficit  por meio da emissão de dívida soberana, que Washington promoveu com sucesso como  um “ativo seguro global” a ser vendido a suas contrapartes internacionais.

    Isso concede ao governo americano e às classes proprietárias de ativos uma série de vantagens, entre elas, a capacidade de manter uma carga tributária relativamente baixa, compensando a arrecadação modesta com a emissão de dívida soberana e com um sofisticado arcabouço institucional destinado a manter o mercado de títulos do Tesouro dos EUA profundo e líquido. O efeito dessa configuração sobre a valorização externa do dólar, no entanto, permanece altamente especulativo, já que a taxa de câmbio depende de muitos fatores além da posição em conta corrente. A sub ou sobrevalorização do dólar não tem uma causa única: em outras palavras, a ambição de Miran de restaurar seu “valor adequado” simplesmente ajustando a balança comercial é simplesmente equivocada.

    Quatro futuros

    Como as ideias de Miran podem moldar o futuro do sistema monetário? Existem quatro cenários possíveis. No primeiro, a manutenção das tarifas provocaria uma contração do comércio global, fomentando a regionalização das cadeias de valor e subitamente desacelerando quatro décadas de avanço desenfreado da globalização financeira. À medida que parceiros comerciais fossem pressionados a firmar acordos favoráveis a Washington, o déficit comercial dos EUA provavelmente diminuiria e o encolhimento global do Sistema  Offshore do Dólar permitiria a internacionalização de outras moedas e o avanço de meios regionais de pagamento, enfraquecendo o domínio do dólar.

    Nesse cenário, veríamos o surgimento de blocos monetários regionais concorrentes, com diferentes jurisdições agrupadas em torno de moedas-chave. Os Estados Unidos provavelmente formariam um bloco com outros países anglófonos, como o Reino Unido e a Austrália, afastando-se ainda mais da União Europeia e comprometendo  a cooperação de segurança transatlântica (como aconteceu recentemente com as ameaças militares à Groenlândia). Isso incentivaria a China a continuar a internacionalização do renminbi, transformando-o numa moeda crucial para a sua região de domínio.  Diante da crescente rivalidade entre os EUA e o país asiático, dirigentes europeus intensificariam os esforços para garantir sua posição tanto no terreno da geopolítica quanto nas questões monetárias internacionais—buscando, por exemplo, novas iniciativas para promover a criação offshore de euros.

    Cenário um—Blocos monetários concorrentes

    AUD: dólar australiano; EUR: euro; GBP: libra esterlina; INR: rupia indiana; PLN: zloty polonês; RMB: renminbi chinês; RUB: rublo russo; SFR: franco suíço; USD: dólar americano; ZAR: rand sul-africano.

    No segundo cenário, o ainda pendente Acordo de Mar-a-Lago, promovido por Miran, permitiria que a globalização financeira continuasse e tornaria outras moedas mais competitivas em relação ao dólar. É um horizonte que brilha aos olhos da facção de Wall Street do governo Trump, que tira bastante proveito do estado atual das coisas. Assim, o dólar manteria sua posição hegemônica e repassaria algumas das supostas desvantagens a parceiros comerciais. A instrumentalização das redes de swap do Fed seria uma arma ainda mais poderosa, porque o acesso à liquidez em momentos de crise poderia ser limitado aos países que se submetessem  às exigências de Washington, enquanto a influência do dólar offshore e do sistema bancário paralelo continuaria crescendo.

    Cenário dois—Globalização financeira contínua

    BRL: real brasileiro; EUR: euro; GBP: libra esterlina; INR: rupia indiana; JPY: iene japonês; RMB: renminbi chinês; RUB: rublo russo; USD: dólar americano; ZAR: rand sul-africano.

    Os cenários um e dois pressupõem que a administração de Trump será capaz de evitar uma grande crise monetária, o que pode não ser exatamente o caso. O Sistema Offshore do Dólar é sustentado pela crença de que os títulos do Tesouro americano são os ativos mais seguros do mundo. Caso as agências de classificação de risco rebaixassem a nota do país como emissor de dívida soberana, essa situação mudaria drasticamente. Em seu “Manual”, Mirian sugere que os títulos do Tesouro dos EUA poderiam ser convertidos à força em “special century bonds”, o que tecnicamente equivaleria a um calote da dívida soberana do país. Caso o Fed deixasse de atuar como guardião do sistema dólar—um cenário factível, considerando a nomeação de Kevin Warsh para a presidência da autoridade monetária—, muito provavelmente uma corrida contra os instrumentos offshore denominados na moeda seria desencadeada, desestruturando o sistema monetário internacional tal como o conhecemos.

    Isso significaria uma radical desestabilização da ordem de moedas, instituições e instrumentos financeiros atualmente existente. Com o fim do Sistema Offshore do Dólar, na ausência de uma estrutura clara para substituí-lo, a situação poderia rapidamente caminhar para a anarquia. Isso agradaria a facção big tech do governo Trump, que almeja uma redução drástica do Estado americano. A eliminação da rede de swap do Federal Reserve seria a versão MAGA da “motosserra”: algo que nem os sonhos mais ambiciosos do DOGE de Elon Musk ousariam cogitar.

    O esquema abaixo ilustra as principais características de um futuro no qual uma infinidade de arranjos monetários convivem entre si. Nele, o país A conserva um sistema semelhante ao atual (ainda que com instrumentos de moeda paralela e offshore em quantidade reduzida); o país B retorna a um sistema onshore de regulação nacional semelhante ao da década de 1950, operando somente com moeda criada pelo banco central e pelos bancos comerciais; o país C adota um sistema totalmente público que existe exclusivamente onshore; e o país D cria um sistema bancário totalmente privado no qual o componente offshore pode ser particularmente forte.

    Paralelamente, outro grupo de países explora opções alternativas ao sistema monetário-financeiro existente: o País E, por exemplo, poderia ser uma das “zonas libertárias” de Quinn Slobodian, adotando um sistema puro de criptomoeda; o país F, regressar ao lastro no ouro; e o país G poderia mergulhar num estado de natureza hobbesiano, no qual a “confiança” que sustenta o sistema monetário teria desaparecido completamente e a economia do escambo teria virado a norma. Nesse caso, o surgimento de novas soluções de pagamento transfronteiriço pode acabar beneficiando as big techs. Em 2019, a Libra, uma criptomoeda criada pelo Facebook, virou manchete com sua tentativa de monetizar a rede social, conectando-a a serviços de pagamento. À época, o projeto foi vetado por órgãos reguladores, mas poderia facilmente ser implementado em um contexto mais anárquico.

    Cenário três—Anarquia monetária internacional

    Finalmente, uma crise monetária poderia levar ao quarto cenário: o surgimento de um novo sistema internacional de compensação envolvendo a cooperação transnacional entre tecnocratas da política monetária. A arquitetura desse sistema, naturalmente, suscita todo tipo de especulação. A figura abaixo ilustra um dos possíveis desenvolvimentos, no qual esse novo sistema não implicaria uma ruptura com as instituições existentes. A ideia geral é que, com o colapso da rede de swap e a redução em larga escala do dólar offshore, banqueiros centrais mundo afora se encarregariam de reformular pontos estratégicos do sistema monetário internacional. Isso demandaria transferir a compensação e liquidação de pagamentos internacionais—não mais protegidas pelos EUA, o antigo credor de última instância—para uma instituição internacional. O candidato mais óbvio seria o Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Suíça, que já reúne com frequência autoridades monetárias de países diversos para discussões sobre assuntos monetários internacionais. O BIS já atuou como agente técnico e financeiro da União Europeia de Pagamentos, que entre 1950 e 1958 adotava uma unidade de conta própria para operar a compensação e liquidação de pagamentos transfronteiriços.

    Se o BIS fosse administrar um sistema internacional de compensação não lastreado pelo dólar,  provavelmente utilizaria como unidade de conta os mesmos direitos especiais de saque (DES)—uma cesta das principais moedas mundiais—que já emprega internamente. Caso os  pagamentos internacionais passassem a ser compensados através do BIS, a criação de moeda offshore em unidades de conta nacionais não seria mais necessária. O escopo das moedas seria novamente restrito a suas respectivas jurisdições monetárias—uma espécie de retorno à soberania monetária “westfaliana”. Por fim, como uma política monetária centrada no banco central não pode se dar ao luxo de relegar a determinação das taxas de câmbio ao mercado, a volta do câmbio fixo, mas ajustável—como na era de Bretton Woods—também seria provável.

    Esse resultado não seria possível sob Trump, que jamais concordaria com tal sistema alternativo (que também não encontraria muito apoio em qualquer parte do atual bloco no poder). Caso o regime MAGA seja substituído por uma administração mais inclinada a reconstruir a ordem global, apoiada por tecnocratas da política monetária dos EUA dispostos a se engajar na cooperação internacional com seus pares, é possível que um projeto dessa natureza ganhe força. Por ora, parece um cenário muito distante.

    Cenário quatro—Sistema Internacional de Compensação

    BIS: Banco de Compensações Internacionais; EUR: Euro; GBP: Libra esterlina; JPY: Iene japonês; RMB: Renminbi chinês; USD: Dólar americano; XDR: Direitos Especiais de Saque; ZAR: Rand sul-africano.

    A defesa de Trump-Miran sobre a necessidade de desvalorização do dólar revela um desconhecimento sobre a dinâmica do sistema monetário global. A tentativa de traduzir políticas nativistas em preceitos monetários ignora a natureza contemporânea do dinheiro, baseado no crédito e, muitas vezes, criado fora do território nacional. O legado desse campo de força ideológico ainda não está claro, mas é bastante provável que o futuro seja marcado por diversas cisões: nacional-populistas apaixonados lutarão por um sistema global menos integrado, na esperança de repatriar empregos industriais; partidários do presidente em Wall Street, por outro lado, defenderão com mais vigor o status quo, na tentativa de salvar justamente a galinha que bota seus ovos de ouro. Possivelmente, libertários do Vale do Silício tentarão promover saídas alternativas de fintech para expandir seu controle sobre as redes globais de pagamentos. Independentemente do cenário, qualquer tentativa de virar o status quo de ponta-cabeça certamente criará mais problemas do que soluções. Ao desmontar uma ordem internacional moldada a seu favor, os Estados Unidos correm o risco de aprofundar sua própria decadência imperial. No futuro, a nova ordem monetária que impõem ao resto do mundo cobrará seu preço.